Sempre achei algo de carinhoso dar nome aos tufões, mais terno ainda porque os nomes escolhidos normalmente são femininos, tornando-os quase uma pessoa de família ou um amigo.
Em Portugal temos tido alguns fenómenos atmosféricos que embora causando alguns estragos pela sua pequenez e pouca frequência não são merecedores de nome. No entanto, os portugueses estão neste momento bem no centro de uma crise que em muito se assemelha a um tufão. E os nomes a dar-lhe podem ser vários: Déficite, Dívida, PECs, etc. Existe uma diferença, o tufão tem curta duração, a crise nem sequer se lhe adivinha o fim.
Independentemente, das causas, da bondade e eficácia das medidas do Governo, ou da realização de eleições antecipadas na esperança de acalmia dos mercados, o que é certo é que se a crise tem características destruidoras de tufão os portugueses devem convencer-se, desde já, que têm de viver um período de grandes dificuldades durante e após a passagem do fenómeno. E resumem-se estas dificuldades à mudança radical de padrões e estilos de vida, restrições no consumo e carência de alguns (quantos?) bens. O processo de desabituação será penoso, mas é inevitável.
A minha maior angústia foi assistir nos últimos dias à desmultiplicação dos políticos dos vários partidos em declaração e contra-declaração acusando-se mutuamente sem apresentarem uma solução de consenso.
22 março 2011
20 março 2011
Dia Mundial da Poesia
Sou amante de poesia tal como sou católico. Sou, mas não pratico. Dos dois factos me penitencio.
Hoje, assinala-se mais um dia mundial: o da poesia. Para não o deixar passar em falso, o poema de Alexander O'Neill,
OS ALEGRES PROPÓSITOS
os sátrapas
pincharam fora
Está vazia a gamela?
É o que há.
Vamos ferver o osso da pobreza,
que é, desta vez, alegremente nossa?
É que a mesa corrida já está posta
Hoje, assinala-se mais um dia mundial: o da poesia. Para não o deixar passar em falso, o poema de Alexander O'Neill,
OS ALEGRES PROPÓSITOS
os sátrapas
pincharam fora
Está vazia a gamela?
É o que há.
Vamos ferver o osso da pobreza,
que é, desta vez, alegremente nossa?
É que a mesa corrida já está posta
"Património", de Philip Roth, D. Quixote
Propositadamente não coloquei este post ontem, Dia do Pai, dia que se quer simpático, festivo, com prendas e sorrisos.
Depois do jantar em família de ontem, ainda em evocação ao Dia do Pai recomendo hoje a leitura de "Património", de Philip Roth, livro onde o autor norte-americano rememora os últimos anos da vida do seu pai em luta com a velhice, o sofrimento e a doença. O filho acompanha de perto sofrendo com o pai.
Embora Roth não seja dos meus autores americanos preferidos, é inegável que este "Património" é uma obra poderosa. Esta definição "obra poderosa" em opinião literária tem pouco ou nenhum significado. No entanto, uso-a com sentido de que é uma obra com um poder (uma narrativa) imensa de nos fazer enfrentar questões que todos tentamos esquecer até à hora em que a realidade se apresenta na sua plenitude. Questões como:
- A relação pai/filho prolonga-se até onde? Em que medida é que a dor física reforça ou destrói os afectos. O complexo de Édipo, em que o filho "mata" o pai para se libertar, inverter-se-á no fim da vida do progenitor, na medida em que o filho não quer que o pai sofra e acabe por morrer?
- Na civilização ocidental a morte quer-se asséptica e liofilizada. Já só se vê o morto depois de arranjado pela funerária. Tendemos, no entanto, a esquecer, ou não querer lembrar que os dias, por vezes muitos, que antecedem a hora fatídica são de uma dureza atroz e que as pessoas cada vez menos estão preparadas para cuidar dos velhos. Então o que fazer com eles?
Philip Roth em "Património" revela o seu testemunho pessoal com o pai, Herman Roth, numa escrita realista e directa a que o leitor não ficará indiferente. Assim tenha entranhas suficientemente fortes para aguentar o livro até ao fim.
Depois do jantar em família de ontem, ainda em evocação ao Dia do Pai recomendo hoje a leitura de "Património", de Philip Roth, livro onde o autor norte-americano rememora os últimos anos da vida do seu pai em luta com a velhice, o sofrimento e a doença. O filho acompanha de perto sofrendo com o pai.
Embora Roth não seja dos meus autores americanos preferidos, é inegável que este "Património" é uma obra poderosa. Esta definição "obra poderosa" em opinião literária tem pouco ou nenhum significado. No entanto, uso-a com sentido de que é uma obra com um poder (uma narrativa) imensa de nos fazer enfrentar questões que todos tentamos esquecer até à hora em que a realidade se apresenta na sua plenitude. Questões como:
- A relação pai/filho prolonga-se até onde? Em que medida é que a dor física reforça ou destrói os afectos. O complexo de Édipo, em que o filho "mata" o pai para se libertar, inverter-se-á no fim da vida do progenitor, na medida em que o filho não quer que o pai sofra e acabe por morrer?
- Na civilização ocidental a morte quer-se asséptica e liofilizada. Já só se vê o morto depois de arranjado pela funerária. Tendemos, no entanto, a esquecer, ou não querer lembrar que os dias, por vezes muitos, que antecedem a hora fatídica são de uma dureza atroz e que as pessoas cada vez menos estão preparadas para cuidar dos velhos. Então o que fazer com eles?
Philip Roth em "Património" revela o seu testemunho pessoal com o pai, Herman Roth, numa escrita realista e directa a que o leitor não ficará indiferente. Assim tenha entranhas suficientemente fortes para aguentar o livro até ao fim.
18 março 2011
A maior Lua cheia e a maior crise financeira
Amanhã será visível a maior Lua cheia dos últimos 18 anos. Aparecerá 14% maior e 30% mais luminosa.
Em que medida, a olho nu, será capaz o ser humano de detectar estas diferenças relativamente às habituais luas cheias? Provavelmente a diferença será indetectável e o comum cidadão contentar-se-á, se se lembrar de olhar o satélite terrestre, em dizer que viu a Lua num dia especial.A maior Lua cheia não terá quaisquer consequências na vida das pessoas, a não ser que nessa noite apreçam mais ou maiores lobisomens do que noutras noites da mesma fase da Lua.
Idêntica é a posição do observador em relação à governação do país - a mais luminosa execução orçamental -, e à actuação do Presidente da República e partidos da oposição - da maior responsabilidade política: não consegue detectar como sair da maior crise económica e financeira dos últimos 18 anos (para utilizar o mesmo período de tempo aplicado ao satélite da Terra). Quanto aos lobisomens, no que à crise se refere, eles andam aí aos magotes e não precisam de especial posicionamento da Lua para actuarem.
Em que medida, a olho nu, será capaz o ser humano de detectar estas diferenças relativamente às habituais luas cheias? Provavelmente a diferença será indetectável e o comum cidadão contentar-se-á, se se lembrar de olhar o satélite terrestre, em dizer que viu a Lua num dia especial.A maior Lua cheia não terá quaisquer consequências na vida das pessoas, a não ser que nessa noite apreçam mais ou maiores lobisomens do que noutras noites da mesma fase da Lua.
Idêntica é a posição do observador em relação à governação do país - a mais luminosa execução orçamental -, e à actuação do Presidente da República e partidos da oposição - da maior responsabilidade política: não consegue detectar como sair da maior crise económica e financeira dos últimos 18 anos (para utilizar o mesmo período de tempo aplicado ao satélite da Terra). Quanto aos lobisomens, no que à crise se refere, eles andam aí aos magotes e não precisam de especial posicionamento da Lua para actuarem.
17 março 2011
O problema de Portugal é...
O problema do Eng.º José Sócrates e do PS já não se prende com o facto de ter ou não razão e de que as medidas orçamentais que aplica e outras que pretende aplicar são as correctas para evitar a intervenção de instituições financeiras estrangeiras. O problema do Primeiro Ministro é que já não consegue acalmar os mercados e só consegue sobressaltar os portugueses.
O problema do Dr. Passos Coelho e do PSD reside exactamente no mesmo facto, embora destes não se conheçam com clareza as soluções alternativas para tirarem Portugal desta situação. O problema do líder do PSD é que, segundo as sondagens, não existe uma garantia de uma composição da Assembleia da República que permita a formação de um governo salvífico. E tal perspectiva não desponta no horizonte porque a situação de angústia dos portugueses
O problema do Presidente da República não é se tem nas mãos um dos mecanismos para provocar eleições antecipadas e se o deve usar. O problema do Prof. Cavaco Silva é que, devido às razões apontadas acima, a utilização desse mecanismo não é garantia de coisa nenhuma e poderá ficar na História como o Presidente que sabia de Economia, mas não foi capaz de politicamente ser origem da resolução do caos económico e financeiro de Portugal.
O problema dos portugueses não é se a solução passa pelo PS, PSD, Presidente da República ou outros quaisquer. O problema dos portugueses é se conseguem aguentar, e como, até à resolução da crise.
O problema do Dr. Passos Coelho e do PSD reside exactamente no mesmo facto, embora destes não se conheçam com clareza as soluções alternativas para tirarem Portugal desta situação. O problema do líder do PSD é que, segundo as sondagens, não existe uma garantia de uma composição da Assembleia da República que permita a formação de um governo salvífico. E tal perspectiva não desponta no horizonte porque a situação de angústia dos portugueses
O problema do Presidente da República não é se tem nas mãos um dos mecanismos para provocar eleições antecipadas e se o deve usar. O problema do Prof. Cavaco Silva é que, devido às razões apontadas acima, a utilização desse mecanismo não é garantia de coisa nenhuma e poderá ficar na História como o Presidente que sabia de Economia, mas não foi capaz de politicamente ser origem da resolução do caos económico e financeiro de Portugal.
O problema dos portugueses não é se a solução passa pelo PS, PSD, Presidente da República ou outros quaisquer. O problema dos portugueses é se conseguem aguentar, e como, até à resolução da crise.
15 março 2011
"Nu au plateau du sculpteur", de Pablo Picasso
O quadro mais caro do mundo, "Nu au plateau du sculpteur", de Pablo Picasso, pertencente a colecção privada, está em exposição na Tate Modern, em Londres.
O quadro apresenta a amante e musa do pintor e custou 76 milhões de euros em Maio do ano passado.
Definitivamente as amantes sempre foram consideradas um luxo caro.
O quadro apresenta a amante e musa do pintor e custou 76 milhões de euros em Maio do ano passado.
Definitivamente as amantes sempre foram consideradas um luxo caro.
14 março 2011
"Berlin Alexanderplatz", de Alfred Doblin, D. Quixote
A manifestação da "Geração à rasca" já foi suficientemente divulgada e debatida pelos inúmeros comentaristas mediáticos. Do que vi, ouvi e li havia um ponto em comum: o protesto expressava a angústia quanto ao futuro(que é já hoje), não dos jovens sem emprego, com contratos precários, falsos recibos verdes..., mas de todas as gerações. A geração do meio, incluindo aqueles que estão empregados, está aflita. Muitas famílias têm de sustentar três gerações (que segundo o paradigma de organização de sociedade actual deveriam ser economicamente independentes), a sua própria, a dos filhos que já deveriam ter ingressado no mercado do trabalho, e a dos pais com reformas de miséria, utilizando uma expressão bem conhecida, mas que começa a tornar-se numa grande verdade e não apenas numa palavra de ordem.
No entanto, o modo como se desenrolou o protesto deu-me algum conforto. O ar festivo, de happening, moderado (a manifestação dos professores de 2009 exalava muito maior agressividade), o retorno à (infeliz normalidade) após o encontro, deu-me o conforto de pensar que a crise, se se faz sentir duramente na carne, ainda não corroeu a alma do povo.
"Berlin Alexanderplatz", romance de Alfred Doblin, O romance relata a vivência de um operário (desempregado), Franz Biberkopf, em 1929, na Alemanha, durante a República de Weimar que desembocou no nacional-socialismo. O autor descreve de forma soberba, quer literária (já alvo de muitas análises, incluindo a de Walter Benjamim, hoje tão divulgado), quer sociológica e psicológica, o que pode acontecer a um povo quando o desgoverno da economia mina até ao tutano os alicerces de uma sociedade. A escrita é dura, duríssima, de uma crueldade ímpar, mas só assim se consegue transmitir a dureza e crueldade de vidas para as quais muitos são empurrados sem possibilidade de fuga.
Algumas análises ao romance dizem que o verdadeiro protagonista do livro é a cidade e principalmente aquela praça, Alexanderplatz, sempre presente como elemento opressor, como um espaço ao qual Bierkopf está confinado, ou ao qual tem sempre de regressar. E a praça e todos os espaços são habitados pelo lumpen, pelos marginais à força.
Quem ler hoje o livro pode fazer uma extrapolação entre a crise de 1929 e a crise actual e sugerir que o verdadeiro protagonista não é a praça, mas a economia sem rumo que nos oprime, procurando-se a solução dentro do mesmo esquema económico que nos confina.
"Berlin Alexanderplatz" é um livro de fôlego (mas não se lê de um fôlego, pelo menos eu), é precisa uma grande resistência e capacidade de sofrimento com a miséria humana para o ler.
Haja esperança que a praça dos Restauradores nunca seja uma Alexanderplatz de 1929.
No entanto, o modo como se desenrolou o protesto deu-me algum conforto. O ar festivo, de happening, moderado (a manifestação dos professores de 2009 exalava muito maior agressividade), o retorno à (infeliz normalidade) após o encontro, deu-me o conforto de pensar que a crise, se se faz sentir duramente na carne, ainda não corroeu a alma do povo.
"Berlin Alexanderplatz", romance de Alfred Doblin, O romance relata a vivência de um operário (desempregado), Franz Biberkopf, em 1929, na Alemanha, durante a República de Weimar que desembocou no nacional-socialismo. O autor descreve de forma soberba, quer literária (já alvo de muitas análises, incluindo a de Walter Benjamim, hoje tão divulgado), quer sociológica e psicológica, o que pode acontecer a um povo quando o desgoverno da economia mina até ao tutano os alicerces de uma sociedade. A escrita é dura, duríssima, de uma crueldade ímpar, mas só assim se consegue transmitir a dureza e crueldade de vidas para as quais muitos são empurrados sem possibilidade de fuga.
Algumas análises ao romance dizem que o verdadeiro protagonista do livro é a cidade e principalmente aquela praça, Alexanderplatz, sempre presente como elemento opressor, como um espaço ao qual Bierkopf está confinado, ou ao qual tem sempre de regressar. E a praça e todos os espaços são habitados pelo lumpen, pelos marginais à força.
Quem ler hoje o livro pode fazer uma extrapolação entre a crise de 1929 e a crise actual e sugerir que o verdadeiro protagonista não é a praça, mas a economia sem rumo que nos oprime, procurando-se a solução dentro do mesmo esquema económico que nos confina.
"Berlin Alexanderplatz" é um livro de fôlego (mas não se lê de um fôlego, pelo menos eu), é precisa uma grande resistência e capacidade de sofrimento com a miséria humana para o ler.
Haja esperança que a praça dos Restauradores nunca seja uma Alexanderplatz de 1929.
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