01 março 2012

AS BOLAS-DE-CRISTAL

Depois do Dr. Passos Coelho, e do Prof. Vitor Pereira (treinador do FC Porto, terem declarado que não têm bola-de-cristal, a Apple diz que vai atacar este nicho de mercado desenvolvendo uma ibola-de-cristal.

29 fevereiro 2012

Este País Não É Para Velhos, Cormac MacCarthy, Relógio d Água

Um mero acaso leva um homem, ainda jovem, a encontrar mais de dois milhões de dólares, droga e uns quantos mortos numa zona fronteiriça do Texas com o México. A partir daí desenrolam-se perseguições e fugas, mais mortos, sheriffs, gente que quer fugir (interiormente) mas não têm yara onde, mais mortos.
Diz-se que Cormack MacCarthy, em "Este País Não É Para Velhos", adaptou o western aos tempos modernos. Porventura, não. O autor descreve, isso sim, o western da actualidade que está impregnado até ao tutano da matriz do Velho Oeste.
"Este País Não É Para Velhos" é um livro estranho que nos faz balançar entre a vontade de o pôr de lado, ou de o ler até ao fim porque debaixo de alguma frase, dentro de um dos capítulos que se intrometem na narrativa, pode estar a revelação. A revelação de quê?, pergunta-se. A razão pela qual a América (ou pelo menos parte dela) chegou até ali. Ali, onde a vida humana não tem valor,em que está literalmente dependente de cara ou coroa, em que o tráfico de droga e outras criminalidades são o único motivo para se estar vivo e se estar morto. A razão pela qual a América não é para velhos.
MacCarthy expõe as suas razões - longamente - através dos pensamentos e estados de alma de um sheriff, e dos diálogos, monótonos, em tom desprendido, em que as personagens quase que estão em permanente desconversação. E aflora as eventuais causas: umas gerações massacradas nas guerras travadas na Europa? No Vietnam? A mentira, a ausência de motivações, as frustrações? O autor parece esquecer, ou eventualmente pretenderá conferir outro rumo, ao que já tinha dito em "Meridiano de Sangue": o Velho Oeste sempre viveu assim, mingado de Lei e Ordem, quando muito, uma lei e uma ordem impostas por quem tomou o poder, e sempre cresceu com recurso à violência mais brutal. Nos dias que correm no outro lado da fronteira, em Juarez, no México, a coisa é ainda muito pior.
"Este País Não É Para Velhos", escrito em dois registos - o da história da perseguição e mortes, e o do pensamento filosófico do sheriff - é, em certa medida, um romance falhado, porque não consege conciliar, nem colocar nitidamente em confronto, as duas abordagens da questão: a do pragmatismo da violência, ou a desistência de uma sociedade com valores, ética e moral Um romance escrito em tintas carregadas e duras, fica-se nas meias-tintas nas respostas.

28 fevereiro 2012

VISÃO DA ACTUALIDADE DA SEMANA

- O Prof. Cavaco Silva é um equívoco - Existem pessoas assim, que nunca fizeram nada mal, mas evitaram que à sua volta se fizesse alguma coisa bem. Mais uma vez o Presidente da República se vem desfazer em iniciativas, declarações e explicações de rabo escondido com o gato totalmente de fora. Isto a propósito do emendar da mão à não comparência na Escola António Arroio. O Prof. Cavaco Silva, que invariavelmente lembra a sua grande experiência, neste caso política, tem dado mostras de se equivocar constantemente nos sinais a dar à sociedade. O Presidente, sem equívocos, mostraria a sua autoridade dizendo simplesmente que não comparece em locais onde a dignidade do cargo eventualmente possa ser posta em causa.
- Laboratório de Ideias e de Propostas para Portugal (LIPP)do PS - Organização para delinear as propostas do PS a apresentar em 2015; organização onde pontuam e é dado destaque aos independentes, que segundo se dizia, são muito imprevisíveis. Na próxima campanha eleitoral para as legislativas o slogan poderá ser: read my LIPP.
- Frase da semana - "Para o ano também não haverá tolerância de ponto no Carnaval", do Ministro Miguel Relvas.
- Livro da semana - Cem Anos de Solidão, Gabriel Garcia Márquez, recomendado à Sr.ª Ministra da Agricultura. É um romance em que “Choveu durante quatro anos, onze meses e dois dias.”

21 fevereiro 2012

E POR QUE NÃO "ÇAPATO" EM VEZ DE SAPATO?

Ferreira Fernandes, cronista que sigo com prazer, ontem, no DN, com a habitual perspicacia e inteligencia com que relaciona as coisas do Mundo, contou que um luandense foi chamado a atencao por escrever "çapato" em vez do correcto sapato, ao que o dito retorquiu se o outro que lera, por acaso, tinha lido bota, ou se nao percebera o sentido da frase escrita. Ja batendo na mesma tonica tinha escrito Henrique Monteiro, no Expresso do fim de semana, argumentando que quando cai o primeiro l do nome Mello, ninguem passou a ler mêlo com e aberto. (E digam-me lá se não perceberam tudo o que eu escrevi). Das peças acima citadas ressalta, sobretudo, que se deve ter em conta o primado da fonética sobre o do grafismo, desde que se perceba o que se está a ler. E, talvez, com razão, já que o parágrafo acima escrito não carece de acentuação para que qualquer leitor entenda o que foi escrito. Conclui-se que agua não necessita de acento para escrevermos quando temos sede, que pe dispensa o agudo quando temos uma dor na extremidade de um dos membros inferiores. O pior é quando se nos coloca a pergunta formulada por Miguel Esteve Cardoso há uns vinte e tal anos atrás: - Tens cagado em casa? - Não, tenho cagado no jardim. (Aqui um acentozinho fará toda a diferença). Julgo que uma língua não se mantém viva e enriquecida por facilitarmos e pactuarmos com o que são, agora, algumas deficiências e corruptelas da linguagem oral, nem tão-pouco por discutirmos a acentuação das palavras proparoxítonas, e do hífen na ênclise e na tmese...Muito menos a vivacidade da língua se fará por qualquer subjugação a interesses económicos (estou ara ver as resmas, as paletes - ai, o galicismo - de livros que os escritores portugueses irão vender a mais no Brasil). Julgo também, que em termos de acordo ortográfico já se atingiu o ponto de não retorno e que não valerá a pena esgrimir mais argmentos e contra-argmentos (leva traço, ou não leva traço?). Nós os defensores de antigos grafismos acabaremos por sucumbir, um a um, à medida do passar do tempo que, inexoravelmente (houve temos em que tinha de escrever isto com acento grave no a), nos irá dizimando. Ou mesmo antes, quando um neto nos pedir ajuda nos trabalhos da disciplina de português. Esta "coisa" do acordo dá-me é uma sensação imensa de prazer por poder fazer algo, e anunciar que faço, de acordo com o que penso, e não com o que me é imposto por lei. (A crónica de Ferreira Fernandes é muito mais - não em extensão, mas em conteúdo - do que o pequeno episódio que me serviu de base para esta reflexão. Vale a pena lê-lo).

18 fevereiro 2012

Grécia, 1977

(Templo de Júpiter, Cabo Súnion)

Passei dois meses na Grécia a fazer um estágio na empresa de electricidade grega,em 1977, três anos depois do fim da ditadura do Estado Novo, em Portugal, três anos depois do fim do regime ditatorial dos coronéis, na Grécia.
Quando os gregos sabiam da minha nacionalidade, português, estabelecia-se uma comunhão, havia uma simpatia redobrada, havia um sentimento de pertença ao mesmo grupo dos recém libertados. Assisti ao primeiro grande concerto de Mikis Theodorakis em Atenas depois da queda da ditadura. Talvez não fosse o primeiro, ou eu não compreendesse grego suficientemente, ou, porventura, eu quisesse muito acreditar que iria estar presente num momento singular. O ambiente era o de um concerto do Zeca Afonso. Lá, como cá, não era a música que contava, eram os símbolos da resistência.
E aprendi a dizer a palavra de ordem, soa assim laos enomenos poté enekimenos (o povo unido jamais será vencido).

Tenho esperança de um dia voltar à Grécia, com o mesmo espírito, o mesmo ambiente. Talvez me saúdem com entusiasmo por eu ser português. Gostaria de me voltar a sentar ao pôr-do-sol, no Cabo Súnion (onde fiz o estágio), a contemplar o templo e a beber ena portugal - uma laranjada (foram os portugueses que levaram as laranjas para Grécia).

14 fevereiro 2012

VISÃO DA ACTUALIDADE DA SEMANA

- Manifestação da CGTP - exceptuando algumas, poucas, manifestações, esta forma de protesto nunca reflecte a dimensão do descontentamento na sua plenitude. As manifestações, como a greve geral, servem essencialmente para demonstrar a capacidade de mobilização das organizações, para assim ganharem capacidade negocial. Independentemente da contabilização de participantes, importa reflectir que na mesma semana as sondagens mantinham o PSD em primeiro lugar e que o PS não capitaliza o descontentamento.

- Segndo pacote de resgate da Grécia - impressionante a cegueira e a insensibilidade dos lideres europeus, não face ao futuro da Grécia, mas face ao futuro da Europa. A rendição só não é incondicional, porque a condição é a Alemanha salvar-se.

- Primarias republicanas nos Estados-Unidos - As eleições norte-americanas não são seguidas com a devida atenção em Portugal (provavelmente, em toda Europa), especialmente no que diz respeito as primárias, que se destinam a escolher o candidato de cada um dos partidos (os democratas tem este ano o candidato natural, Barack Obama). Os debates e as declarações dos candidatos republicanos são dignos do melhor programa de humor non-sense. Às vezes (muitas vezes) um daqueles senhores chega a Presidente e manda no Mundo. A seguir no Daily Show de Jon Stewart.

- Frase da semana - Tenho esperança que chuva. A senhora ministra da Agricultura, etc., etc.sintetiza a filosofia do governo: esperança que a economia recupere; esperança que os doentes não adoeçam; esperança que os portugueses emigrem; esperança que o petróleo não suba; esperança que...

- Livro da semana - Este País Não É Para Velhos, de Cormac McCarthy, (a ler, é muito melhor o livro do que o filme).

13 fevereiro 2012

O MARIQUINHAS PÉ-DE-SALSA

Mariquinhas pé-de-salsa era a nomeação mais utilizada nos meus tempos da primária (idos de 50) para achincalhar o medroso que recusava portar-se como um homem e que do queixume fazia a sua tábua de salvação em situações de aperto. Mas aos mariquinhas pé-de-salsa não se lhe exigiam actos de heroísmo e de abnegação, quando muito o cumprimento dos serviços mínimos, normalmente em matérias de virilidade e de força. No código de honra da canalha (aqui entendida como miudagem) daquele tempo era impensável apodar de mariquinhas pé-de-salsa aquele que se queixava de algum acto atentatório que lhe fosse imposto; não se usava a terminologia em vão, sob pena de retaliação feroz do visado.
O mariquinhas pé-de-salsa tinha um primo em primeiro grau: o vidrinho-de-cheiro, que largava lágrima ou choro desalmado à primeira contrariedade, que chorava quando o aborreciam, que amuava quando o criticavam. Em termos de hierarquia, o vidrinho-de-cheiro estava abaixo do mariquinhas pé-de-salsa.

Ser apelidado de piegas não aquece, nem arrefece; não se sabe se é sucedâneo do mariquinhas pé-de-salsa ou vidrinho-de-cheiro; não é insulto; tão pouco será de perder grande tempo com o assunto. O problema é que quem chamou piegas não quis apelar ao amor-próprio e auto-estima, mas dizer: não me chateiem, comam e calem; pior, não quis dizer, não se queixem com os sacrifícios já impostos, pretendeu significar que todas as imposições futuras devem ser aceites e consentidas com um cerrar de dentes, se não mesmo com um sorriso nos lábios.

Ah, é bom lembrar outra característica do mariquinhas pé-de-salsa: desenvolvia um secreto desejo de vingança, que muitas vezes era concretizado. Esperemos para ver como se comporta o piegas.