O Dr. Passos Coelho citou Luís de Camões, apoiando-se nos versos de Os Lusíadas, para garantir a nobreza e elevação das suas palavras (suas, de Passos Coelho). Longe de mim pensar que o Primeiro-Ministro não leu Os Lusíadas, pois é um livro que existe, mas mostrou que não conhece a Luís de Camões, desconhece a sua vida e índole, o que terá levado a não se rodear das necessárias cautelas para o apresentar como exemplo para os portugueses. Pode mesmo ser perigoso e nefasto, se não, vejamos:
Segundo consta, o dito Luís de Camões nunca foi dado a grandes esforços e trabalhos. Quando estudava(?) em Coimbra tornou-se no paradigma de outros tantos estudantes, séculos depois, que pouco ou nada roçaram o gibão ou as calças pelos bancos da universidade. Terá, possivelmente, numa de tráfico de influências,obtido o beneplácito e fechar de olhos de muitos professores, já que o tio Bento era Chanceler da Universidade.
Depois, alheando-se das formigas, tornou-se numa cigarra do Paço entre outras muitas cigarras, passando os dias, mesmo os de Inverno, a rimar doces seduções às meninas da nobreza e do povo; emigrou (talvez, segundo a cartilha de Passos Coelho, a única coisa que fez bem feita) dedicando-se a muita leitura de clássicos, ao mesmo tempo que dava mostras de lhe faltar aquela centelha do empreendedorismo inseriu-se naquele grupo pouco recomendável dos intelectuais e toca de escrever a obra onde o Primeiro-Ministro bebeu agora a inspiração; regressado a Portugal (o que um português verdadeiramente patriota nunca faria) por todos os meios tentou, e conseguiu, junto de D. Sebastião um subsídio do Reino, à custa de tantas loas cantar do Rei. Já no fim da vida, na miséria, queixava-se de não ter o Rendimento Social de Inserção, não deixando, contudo, de viver acima das suas possibilidades, pois não prescindia do seu criado Jao.
Estou em crer que é chegada a altura de alguém soprar ao Dr. Passos Coelho, não os versos de Camões, mas os de outro poeta português (outro que queria subsídios):
Já Governo não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.
27 setembro 2012
16 setembro 2012
FUGA DE INFORMAÇÃO DO GOVERNO
Para não pôr em causa a coesão do governo, Passos Coelho determinou que se algum membro do mesmo tiver inteligência não deve mostrá-la em solidariedade com o resto do executivo.
14 setembro 2012
PASSOS COELHO UNIU OS PORTUGUESES
O Primeiro-Ministro, com o anúncio da austeridade-ideológica de dia 7, em substituição da austeridade-por-necessidade, e com o entrevista de atabalhoamento económico e político dada ontem à RTP1, conseguiu o inimaginável: unir os portugueses contra "eles". Nunca no pós-25 de Abril foi tão notória a linha separadora entre nós, o povo português, e "eles", os governantes dos interesses, dos amiguismos, das negociatas. Dir-se-á que todos os governos cederam a interesses de diverso cariz e concederam ou pagaram os seus favores. Nenhum como este, levava já preparada para a cadeira do poder uma cartilha tão bem estudada e delineada de assalto ao pote.
Somos definitivamente nós contra "eles". Todo o povo, porque muitos dos portugueses que constituem a base social de apoio dos partidos do governo, vivem acima das suas possibilidades, mas abaixo das suas necessidades, muitos deixaram de ter dinheiro para a saúde, para transportes, para comer, para a escola dos filhos.
O Primeiro-Ministro que dizia ser ele o porta-voz das más notícias, limitou-se a anunciar uma só, deixando o resto ao ministro Gaspar; o Primeiro-Ministro fez uma escolha ideológica entre o trabalho e o capital ao escolher para anunciar a medida da TSU, aquela que despudoradamente transfere dinheiro dos trabalhadores para as empresas.
Passos Coelho pode apresentar à troika um amplo consenso nacional: nós todos, o povo, contra "eles", o governo.
Somos definitivamente nós contra "eles". Todo o povo, porque muitos dos portugueses que constituem a base social de apoio dos partidos do governo, vivem acima das suas possibilidades, mas abaixo das suas necessidades, muitos deixaram de ter dinheiro para a saúde, para transportes, para comer, para a escola dos filhos.
O Primeiro-Ministro que dizia ser ele o porta-voz das más notícias, limitou-se a anunciar uma só, deixando o resto ao ministro Gaspar; o Primeiro-Ministro fez uma escolha ideológica entre o trabalho e o capital ao escolher para anunciar a medida da TSU, aquela que despudoradamente transfere dinheiro dos trabalhadores para as empresas.
Passos Coelho pode apresentar à troika um amplo consenso nacional: nós todos, o povo, contra "eles", o governo.
11 setembro 2012
VISÃO DA ACTUALIDADE DA SEMANA
- Comunicação do Primeiro-Ministro ao País: Hoje a crónica tem um único ponto, e em forma de manifesto.
É absolutamente imprescindível que todos, e cada um, tomem consciência que a comunicação do Primeiro-Ministro ao País , na passada sexta-feira, é um ponto de viragem. Não se limitou à apresentação do primeiro-ministo-sexta-feira de mais umas medidas de austeridade que o cidadão e pai-sábado lamenta. É preciso que todos, e cada um, tomem consciência de que o governo, pela boca do seu arauto das más notícias, o que fez foi passar todo o ónus da tentativa da saída crise para o trabalho, para as pessoas, para as famílias, aliviando o capital, as empresas, e mantendo muitas das despesas inúteis da máquina do Estado inalteradas.
E a comunicação aos portugueses é um ponto de viragem porque:
ou, a rebelião que se tem sentido nas redes sociais e nos media, proveniente de todos os sectores da sociedade, toma corpo, toma forma, tem efeitos práticos, e governo e troika arrepiam caminho passando a olhar para as pessoas do modo que elas merecem,
ou, se mais uma vez todos, e cada um, se acomodam, e então, aí sim, nada deterá estes governantes. É o regabofe como este povo nunca viu.
- Livro da semana: A Fome, de Knut Hamsun.
É absolutamente imprescindível que todos, e cada um, tomem consciência que a comunicação do Primeiro-Ministro ao País , na passada sexta-feira, é um ponto de viragem. Não se limitou à apresentação do primeiro-ministo-sexta-feira de mais umas medidas de austeridade que o cidadão e pai-sábado lamenta. É preciso que todos, e cada um, tomem consciência de que o governo, pela boca do seu arauto das más notícias, o que fez foi passar todo o ónus da tentativa da saída crise para o trabalho, para as pessoas, para as famílias, aliviando o capital, as empresas, e mantendo muitas das despesas inúteis da máquina do Estado inalteradas.
E a comunicação aos portugueses é um ponto de viragem porque:
ou, a rebelião que se tem sentido nas redes sociais e nos media, proveniente de todos os sectores da sociedade, toma corpo, toma forma, tem efeitos práticos, e governo e troika arrepiam caminho passando a olhar para as pessoas do modo que elas merecem,
ou, se mais uma vez todos, e cada um, se acomodam, e então, aí sim, nada deterá estes governantes. É o regabofe como este povo nunca viu.
- Livro da semana: A Fome, de Knut Hamsun.
10 setembro 2012
O Sentido do Fim, Julian Barnes, Quetzal
"O Sentido do Fim", em narrativa pretensamente desprendida de Julian Barnes tem algo de intimista e confessional. Uma conversa que se podia ter à mesa de café com um amigo a quem não seria necessário pedir segredo, pois os factos relatados de tão banais não mereceriam o reparo de reservados.
O romance (?) desenvolve-se a dois tempos: um, em que Tony Webster, em idade jovem, colegial, ansiando por sexo, literatura e discussões filosóficas, se encontra com Adrian Finn, novo companheiro de escola, e o apresenta à sua namorada Verónica; outro, em idade madura, em que já percorreu os passos normais de um casamento, de um divórcio,de ter uma filha, de uma carreira. A relação entre Adrien e Verónica (per)seguirá Tony Webster ao longo da vida, mas sem lhe causar engulhos até ao momento em que é confrontado com um estranho testamento e uma página arrancada do diário de Adrien que se suicidara.
"O Sentido do Fim", é um percurso através da memória, do envelhecimento, e do quanto o convencimento em verdades absolutas do nosso passado nos podem atraiçoar. A ordem dos factores não é arbitrária: o envelhecimento só acontece à medida que a memória vai colocando os factos nos lugares que cada um de nós lhe destina, já que a memória não é mais do que uma escolha do que queremos e como queremos recordar.
O romance, laureado com Man Booker Prize Award 2011, vale sobretudo pelas pequenas reflexões que o autor introduz ao longo da narrativa que nos fazem pensar que as memórias são retoques que damos no passado para construírem - ficcionarem - a nossa história de vida. Por vezes, damos conta que vivemos iludidos e que somos obrigados a uma remodelação bem maior do passado do que aquela a que já nos habituáramos.
Julian Barnes deixa muitas portas entreabertas sobre a vida das personagens e dos acontecimentos. Mas, não é assim que, em tom coloquial, falamos com os nossos amigos: lacunas, saltos no tempo, memórias dispersas? Um bom livro capaz de despertar o interesse noutros títulos do mesmo autor.
O romance (?) desenvolve-se a dois tempos: um, em que Tony Webster, em idade jovem, colegial, ansiando por sexo, literatura e discussões filosóficas, se encontra com Adrian Finn, novo companheiro de escola, e o apresenta à sua namorada Verónica; outro, em idade madura, em que já percorreu os passos normais de um casamento, de um divórcio,de ter uma filha, de uma carreira. A relação entre Adrien e Verónica (per)seguirá Tony Webster ao longo da vida, mas sem lhe causar engulhos até ao momento em que é confrontado com um estranho testamento e uma página arrancada do diário de Adrien que se suicidara.
"O Sentido do Fim", é um percurso através da memória, do envelhecimento, e do quanto o convencimento em verdades absolutas do nosso passado nos podem atraiçoar. A ordem dos factores não é arbitrária: o envelhecimento só acontece à medida que a memória vai colocando os factos nos lugares que cada um de nós lhe destina, já que a memória não é mais do que uma escolha do que queremos e como queremos recordar.
O romance, laureado com Man Booker Prize Award 2011, vale sobretudo pelas pequenas reflexões que o autor introduz ao longo da narrativa que nos fazem pensar que as memórias são retoques que damos no passado para construírem - ficcionarem - a nossa história de vida. Por vezes, damos conta que vivemos iludidos e que somos obrigados a uma remodelação bem maior do passado do que aquela a que já nos habituáramos.
Julian Barnes deixa muitas portas entreabertas sobre a vida das personagens e dos acontecimentos. Mas, não é assim que, em tom coloquial, falamos com os nossos amigos: lacunas, saltos no tempo, memórias dispersas? Um bom livro capaz de despertar o interesse noutros títulos do mesmo autor.
04 setembro 2012
VISÃO DA ACTUALIDADE DA SEMANA
- RTP I: A Administração da RTP não tinha que tomar qualquer posição pública sobre opiniões de consultores mesmo que essas tivessem o aval do ministro da tutela. Com a publicação de um comunicado discordante apenas restava à administração um caminho: a porta da rua. Só que, perante estes factos, a iniciativa de abandonar o cargo não deveria ter sido da Administração, mas da Tutela. O ministro Miguel Relvas ao não fazê-lo mostrou o déficite de autoridade de que padece e que desconhece o bê-a-bá da gestão e da condução de organizações empresariais.
- RTP II: Com as razões até agora apresentadas não me dou por plenamente convencido sobre as virtualidades de uma RTP pública ou privada.O argumento de que em todo mundo é assim, para mim é curto. A única coisa que estou convicto é que o processo de alienação da RTP está inquinado de início e que dá ares a chico-espertertisse de entrega a preço de saldo de um canal de televisão a interesses ou amigos privados.
- RTP, outros e os submarinos O CDS-PP opôs-se a novo aumento de impostos - periscópio de fora; O CDS-PP entrava a Lei Eleitoral das Autarquias - proa dos submarinos a emergir; o CDS-PP rebela-se contra a opinião de um consultor-turbo para a RTP - o corpo do processo dos submarinos quase à tona como anunciado na universidade de verão do PSD. Pero que las hay, hay.
-Déficite de 2012 em 6,9%: A revisão em alta, em forte alta e não apenas numas décimas como disse o sr. PR, não é surpresa para ninguém. Muito menos para o governo. Todos os indicadores económicos e económico-sociais estão piores do que há um ano e meio. Este é o bom caminho, custe o que custar, pois os mercados, os chineses, os angolanos, os amigos, estão contentes
- Frase da semana: Nem tudo aconteceu exactamente como esperado, declaração do Primeiro-Ministro. Não sei exactamente o que esperava o sr. Primeiro-Ministro, mas que nada se passou exactamente como aquilo que por ele foi dito, disso temos a certeza. E isso está documentado.
- Livro da semana: A Ilha de Sukkwan de David Vann. Ilha inóspita e "perdida" no Alasca onde pai e filho passam doze meses em tensão. Recomendado a Passos Coelho e Paulo Portas. A situação torna-se incontrolável.
- RTP II: Com as razões até agora apresentadas não me dou por plenamente convencido sobre as virtualidades de uma RTP pública ou privada.O argumento de que em todo mundo é assim, para mim é curto. A única coisa que estou convicto é que o processo de alienação da RTP está inquinado de início e que dá ares a chico-espertertisse de entrega a preço de saldo de um canal de televisão a interesses ou amigos privados.
- RTP, outros e os submarinos O CDS-PP opôs-se a novo aumento de impostos - periscópio de fora; O CDS-PP entrava a Lei Eleitoral das Autarquias - proa dos submarinos a emergir; o CDS-PP rebela-se contra a opinião de um consultor-turbo para a RTP - o corpo do processo dos submarinos quase à tona como anunciado na universidade de verão do PSD. Pero que las hay, hay.
-Déficite de 2012 em 6,9%: A revisão em alta, em forte alta e não apenas numas décimas como disse o sr. PR, não é surpresa para ninguém. Muito menos para o governo. Todos os indicadores económicos e económico-sociais estão piores do que há um ano e meio. Este é o bom caminho, custe o que custar, pois os mercados, os chineses, os angolanos, os amigos, estão contentes
- Frase da semana: Nem tudo aconteceu exactamente como esperado, declaração do Primeiro-Ministro. Não sei exactamente o que esperava o sr. Primeiro-Ministro, mas que nada se passou exactamente como aquilo que por ele foi dito, disso temos a certeza. E isso está documentado.
- Livro da semana: A Ilha de Sukkwan de David Vann. Ilha inóspita e "perdida" no Alasca onde pai e filho passam doze meses em tensão. Recomendado a Passos Coelho e Paulo Portas. A situação torna-se incontrolável.
23 agosto 2012
A ESTAÇÃO PARVA, TONTA, O RAIO-QUE-A-PARTA
Em texto, de 14 de Agosto, VISÃO DA ACTUALIDADE DA SEMANA, aqui escrevi que a estação parva é bem mais séria do que parece. Se o facto de em 2013 ser necessário compensar a receita que se previa arrecadar com os cortes de subsídios da função já não nos agourava um Agosto tranquilo, hoje foi revelado que a cobrança de impostos ficou três mil milhoes abaixo do previsto pelo governo, cabendo a maior fatia da queda ao IVA. Este dinheirinho não falta em 2013, é já em 2012. A estação é parva pelo que ninguém estranhará que o Primeiro-Ministro reafirme o custe o que custar, o Álvaro ministro diga que estamos a trabalhar no coiso e vamos ver os efeitos, que o Dr. Vítor Gaspar anda as voltas com o calendário do Borda d'água em busca do ano em que se inverterá a desgraça do déficite, do desemprego, da retoma, e que o dr. Paulo Portas, muito convincente, diga que agora estamos melhor estabelecendo paralelos entre o tempo em que ia meter combustível a Espanha, em que cortava nas fundações, institutos e resolvia os problemas do déficite com, um estalar de deos, e em que recusava aumentos de impostos.
A estação é parva. E o burro? O burro, sou eu?
A estação é parva. E o burro? O burro, sou eu?
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