O que é o romance? O contar de uma história? História verdadeira? Ficcionada? É o relato de um acontecimento sem história? A simples descrição de locais, de pessoas, de estados de alma?
Em "A fábula", William Faulkner, fornece-nos tudo o que é o romance: existe uma história - o fuzilamento de soldados franceses amotinados na frente de batalha na 1ª Guerra Mundial - que remete para outra história - a Paixão de Cristo -, mas grande parte do livro "nada" tem a ver com a história, é uma descrição de factos, sentimentos, pensamentos descritos com tal pormenor em longos parágrafos de escrita corrida - que se alonga, prolonga, volta atrás, muda de local, em que um minuto dura mais do que um minuto, um dia dura muito mais do que 24 horas - que a certa altura temos a sensação de serem puramente acessórios "desnecessários" à história da qual nos alheamos e à qual regressamos quando o autor a recupera.
É um livro extenso que não se pode ler a espaços, meia página agora, uma logo, outra ao deitar. Tem de se ler com tempo porque o martelar constante das repetições ao longo do texto são o segredo para descobrirmos (sentirmos) que todas as "desnecesidades" para a narração são afinal tudo o que contribui para que a história acontecesse como aconteceu.
14 abril 2011
13 abril 2011
"A Cruz de Santo André", de Camilo José Cela, DN
"A Cruz de Santo André" foi galardoado em 1994 com o Prémio Planeta. O escritor Camilo José Cela foi acusado de plágio por Carmen Formoso tendo um tribunal dado como provada a acusação,mas o processo continua a correr por recurso interposto pelo editor, pois o autor faleceu em 2002.
Independentemente da veracidade ou não do plágio, que a ter existido é reprovável, o que é facto que "A Cruz de Santo André" é um romance com uma estrutura narrativa peculiar - três monólogos de três mulheres - que corre a velocidade vertiginosa e em que as narradoras contam e criticam de modo arrasador as vidas próprias e as dos outros passando rapidamente da perspectiva cómica e irreverente para a tragédia
Se romances existem em que o leitor se sente envolvido e vive dentro do ambiente do romance enquanto lê, em "A Cruz de Santo André" somos ouvintes (convém que atentos) ao desfiar das histórias das três personagens sendo muitas vezes levados a intuir a efabulação dos acontecimentos devido ao absurdo dos mesmos.
Leitura recomendada deste autor, sobretudo "A Colmeia".
Camilo José Cela foi galardoado com o Nobel e outros prémios de relevo.
Independentemente da veracidade ou não do plágio, que a ter existido é reprovável, o que é facto que "A Cruz de Santo André" é um romance com uma estrutura narrativa peculiar - três monólogos de três mulheres - que corre a velocidade vertiginosa e em que as narradoras contam e criticam de modo arrasador as vidas próprias e as dos outros passando rapidamente da perspectiva cómica e irreverente para a tragédia
Se romances existem em que o leitor se sente envolvido e vive dentro do ambiente do romance enquanto lê, em "A Cruz de Santo André" somos ouvintes (convém que atentos) ao desfiar das histórias das três personagens sendo muitas vezes levados a intuir a efabulação dos acontecimentos devido ao absurdo dos mesmos.
Leitura recomendada deste autor, sobretudo "A Colmeia".
Camilo José Cela foi galardoado com o Nobel e outros prémios de relevo.
12 abril 2011
Pensamentos do escritor
Na passada 5ª – feira foi ao lançamento do livro “Deixem Falar as Pedras”, de David Machado. A apresentação da obra esteve a cargo de Mário de Carvalho. Lembro-me que um dia disse: já escrevi uns doze livros, posso considerar-me escritor.
Tenho a certeza de que Mário de Carvalho não avalia a sua (e de outros) denominação de escritor baseado na quantidade. O que queria dizer é que já tinha escrito uns doze livros com qualidade literária.
Mas quem determina a qualidade? O próprio? A crítica? Os prémios? Os leitores? O número de exemplares vendidos? Tudo isto em conjunto?
Ao titular estes post como “Pensamentos de escritor” (eu que ainda só publiquei dois livros) estarei a ser demasiado presunçoso?
Uma coisa é certa: enquanto escrevo sinto-me na pele de um “escritor”, a dúvida surge nos intervalos.
Tenho a certeza de que Mário de Carvalho não avalia a sua (e de outros) denominação de escritor baseado na quantidade. O que queria dizer é que já tinha escrito uns doze livros com qualidade literária.
Mas quem determina a qualidade? O próprio? A crítica? Os prémios? Os leitores? O número de exemplares vendidos? Tudo isto em conjunto?
Ao titular estes post como “Pensamentos de escritor” (eu que ainda só publiquei dois livros) estarei a ser demasiado presunçoso?
Uma coisa é certa: enquanto escrevo sinto-me na pele de um “escritor”, a dúvida surge nos intervalos.
07 abril 2011
6 de Abril, um dia triste para a União Europeia
Escrevi há bem pouco tempo que o Primeiro-Ministro cometia um erro de avaliação ao pensar que seria imbatível ao contrapor argumentos racionais e lógicos ao simples desejo de todos os actores nesta situação de crise para que Portugal solicitasse uma intervenção externa. Além disso Sócrates sentir-se-ia respaldado pelos nossos parceiros europeus – apontavam nesse sentido as declarações públicas da Sra Merkl, do Sr. Trichet, do Sr. Durão Barroso que diziam estarem confiantes nas medidas adoptadas por Portugal.
Afinal ss desejos tornaram-se realidade e ontem Portugal pediu intervenção externa.
Diz Ricardo Costa, do Expresso, que o Primeiro-Ministro deitou a toalha ao chão. Não me parece, embora o resultado final seja o mesmo, o PM não deitou a toalha ao chão, foi empurrado para fora do ringue por adversários (mercados) e árbitros (União Europeia).
O Eng.º Sócrates, assumido General, cometeu segundo erro contrariando todos os manuais da estratégia e táctica militares: em vez de observar a batalha de ponto recuado e de visão privilegiada, avançou à frente das tropas e esqueceu-se de olhar para trás. Quando olhou não estava lá ninguém. A União Europeia debandara, os banqueiros portugueses tinham hasteado a bandeira branca.
Se estes factos são irrelevantes para o curto (e possivelmente médio) prazo da História de Portugal, não o são para a História da Europa.
Com Portugal, no espaço de um ano, a ser o terceiro país da Zona Euro a recorrer a intervenção externa (que não tem resultado como previsto nos casos da Grécia e da Irlanda), a Europa demonstra que estão em causa as bases de uma zona económica mundial que se pretendia una e solidária. Sem enjeitarmos as nossas responsabilidades sobre as dificuldades que enfrentamos, afirmo que o dia 6 de Abril de 2011 foi, quase de certeza, o dia mais triste para a Europa desde a criação da moeda única. A União Europeia, a Velha Europa, demonstrou não estar em condições de ombrear com os grandes espaços e mercados económicos actuais: Estados-Unidos, China, Brasil e até “alguma” África num futuro próximo.
Afinal ss desejos tornaram-se realidade e ontem Portugal pediu intervenção externa.
Diz Ricardo Costa, do Expresso, que o Primeiro-Ministro deitou a toalha ao chão. Não me parece, embora o resultado final seja o mesmo, o PM não deitou a toalha ao chão, foi empurrado para fora do ringue por adversários (mercados) e árbitros (União Europeia).
O Eng.º Sócrates, assumido General, cometeu segundo erro contrariando todos os manuais da estratégia e táctica militares: em vez de observar a batalha de ponto recuado e de visão privilegiada, avançou à frente das tropas e esqueceu-se de olhar para trás. Quando olhou não estava lá ninguém. A União Europeia debandara, os banqueiros portugueses tinham hasteado a bandeira branca.
Se estes factos são irrelevantes para o curto (e possivelmente médio) prazo da História de Portugal, não o são para a História da Europa.
Com Portugal, no espaço de um ano, a ser o terceiro país da Zona Euro a recorrer a intervenção externa (que não tem resultado como previsto nos casos da Grécia e da Irlanda), a Europa demonstra que estão em causa as bases de uma zona económica mundial que se pretendia una e solidária. Sem enjeitarmos as nossas responsabilidades sobre as dificuldades que enfrentamos, afirmo que o dia 6 de Abril de 2011 foi, quase de certeza, o dia mais triste para a Europa desde a criação da moeda única. A União Europeia, a Velha Europa, demonstrou não estar em condições de ombrear com os grandes espaços e mercados económicos actuais: Estados-Unidos, China, Brasil e até “alguma” África num futuro próximo.
05 abril 2011
A astrologia e ajuda externa
Questionado sobre a possibilidade da astrologia ter influência sobre o sobe e desce das bolsas, alguém (não me lembro quem) respondeu que sim, que era perfeitamente possível se os investidores passassem a tomar as suas decisões baseados no horóscopo.
O Primeiro-Ministro continua firmemente convencido e determinado em evitar/atrasar o pedido de ajuda externa possivelmente baseado nos dados que tem sobre as finanças públicas. Mas, quando a sua voz é única (a voz do PM e do PS é uma só) e todas as outras clamam pela dita intervenção (é um termo mais adequado do que ajuda), o Eng.º José Sócrates deverá também tentar compreender o que ditam os oráculos. Não é possível acalmar os mercados, as agências de rating, os bancos financiadores, os investidores quando o país dos influentes, dos sábios, dos fazedores de opinião, da oposição, do Presidente da República (que ensinou os jornalistas que não se diz FMI, mas FEEF), do Presidente da União Europeia já determinaram que é necessário recorrer aos Fundos.
O Eng.º José Sócrates diz que tudo fará para tentar evitar a intervenção externa, mas comete um erro de avaliação ao pensar que a “obrigação” do pedido de intervenção não possa ser comandado pelo “horóscopo”, ou seja por factores, mais ou menos ocultos, que ele não controla.
Nota: enquanto escrevia esta crónica vi passar em rodapé de um canal de televisão que uma agência de rating acaba de cortar a notação de 6 bancos portugueses.
O Primeiro-Ministro continua firmemente convencido e determinado em evitar/atrasar o pedido de ajuda externa possivelmente baseado nos dados que tem sobre as finanças públicas. Mas, quando a sua voz é única (a voz do PM e do PS é uma só) e todas as outras clamam pela dita intervenção (é um termo mais adequado do que ajuda), o Eng.º José Sócrates deverá também tentar compreender o que ditam os oráculos. Não é possível acalmar os mercados, as agências de rating, os bancos financiadores, os investidores quando o país dos influentes, dos sábios, dos fazedores de opinião, da oposição, do Presidente da República (que ensinou os jornalistas que não se diz FMI, mas FEEF), do Presidente da União Europeia já determinaram que é necessário recorrer aos Fundos.
O Eng.º José Sócrates diz que tudo fará para tentar evitar a intervenção externa, mas comete um erro de avaliação ao pensar que a “obrigação” do pedido de intervenção não possa ser comandado pelo “horóscopo”, ou seja por factores, mais ou menos ocultos, que ele não controla.
Nota: enquanto escrevia esta crónica vi passar em rodapé de um canal de televisão que uma agência de rating acaba de cortar a notação de 6 bancos portugueses.
04 abril 2011
O "apagão" da Luz
O Futebol Clube do Porto conquistou ontem o 25º título de Campeão Nacional de Futebol. Fê-lo, amealhando os pontos necessários com uma vitória em casa do mais directo rival dos últimos anos e nomeadamente deste campeonato.
O jogo não era de vida ou de morte, pois o FCP, a cinco jornadas do fim, acabaria, mais tarde ou mais cedo, por conseguir os três pontos em falta para se sagrar campeão. Apimentou-se o jogo, tal como no ano transacto, com uma conquista adicional que seria a de fazer a festa no estádio do adversário.
O FCP ganhou por 2-1 atingindo o objectivo. Que mais haveria para fazer ou para contar? Nada. Por isso, os responsáveis benfiquistas, ao contrário do que dizem os comentadores, em tempos de austeridade deram um exemplo ao país: pouparam no consumo de energia, apagando de imediato as luzes do estádio, e activando o sistema de rega fora das horas de Sol e de mais calor para evitar maior evaporação, poupando água.
O jogo não era de vida ou de morte, pois o FCP, a cinco jornadas do fim, acabaria, mais tarde ou mais cedo, por conseguir os três pontos em falta para se sagrar campeão. Apimentou-se o jogo, tal como no ano transacto, com uma conquista adicional que seria a de fazer a festa no estádio do adversário.
O FCP ganhou por 2-1 atingindo o objectivo. Que mais haveria para fazer ou para contar? Nada. Por isso, os responsáveis benfiquistas, ao contrário do que dizem os comentadores, em tempos de austeridade deram um exemplo ao país: pouparam no consumo de energia, apagando de imediato as luzes do estádio, e activando o sistema de rega fora das horas de Sol e de mais calor para evitar maior evaporação, poupando água.
02 abril 2011
O FMI e os ratos de laboratório
É pena que as medidas políticas, económicas e financeiras não possam ser primeiro experimentadas em ratos em ambiente laboratorial. É pena, porque assim jamais saberemos qual teria sido a evolução do país se o PEC IV tivesse sido aprovado.
Sempre pensei que a melhor solução - negociada com o PS (com o Eng.º Sócrates) ou à revelia deste - teria sido a aprovação do dito PEC com convocação imediata de eleições. Não se podendo experimentar em laboratório, jamais conheceremos o desfecho se esse fosse o caminho trilhado.
Mas aberta a crise política, em que já não há uma voz contra (esperemos pela entrevista do Primeiro-Ministro na 2ª-feira) o pedido de ajuda externa, parece-me estarmos todos convencidos que qualquer experiência laboratorial quanto à intervenção externa, a ser possível, seria absolutamente irrelevante. Mais tarde ou mais cedo, amanhã, ou depois, vamos recorrer ao FMI ou à UE. A minha convicção advém do facto de não haver uma única força viva que apresente uma alternativa viável a curto prazo e de o PSD se mostrar tão disponível para apoiar o Governo nesse pedido (o que parece um contra-senso ao ter recusado o PEC IV por penalizar demasiado os portugueses).
No entanto, o maior problema não está na intervenção de uma entidade externa para sanear as contas públicas, mas na possibilidade de fazer crescer o país (o PIB) em anos de forte austeridade. Pelas intervenções que têm vindo a lume de especialistas na matéria, qualquer solução desemboca sempre na necessidade de mais dinheiro: para pagar o que devemos e para investir.
É realmente de lamentar que os ratos não usem dinheiro, não tenham mercados financeiros e agências de rating para que pudéssemos testar as soluções em laboratório.
Sempre pensei que a melhor solução - negociada com o PS (com o Eng.º Sócrates) ou à revelia deste - teria sido a aprovação do dito PEC com convocação imediata de eleições. Não se podendo experimentar em laboratório, jamais conheceremos o desfecho se esse fosse o caminho trilhado.
Mas aberta a crise política, em que já não há uma voz contra (esperemos pela entrevista do Primeiro-Ministro na 2ª-feira) o pedido de ajuda externa, parece-me estarmos todos convencidos que qualquer experiência laboratorial quanto à intervenção externa, a ser possível, seria absolutamente irrelevante. Mais tarde ou mais cedo, amanhã, ou depois, vamos recorrer ao FMI ou à UE. A minha convicção advém do facto de não haver uma única força viva que apresente uma alternativa viável a curto prazo e de o PSD se mostrar tão disponível para apoiar o Governo nesse pedido (o que parece um contra-senso ao ter recusado o PEC IV por penalizar demasiado os portugueses).
No entanto, o maior problema não está na intervenção de uma entidade externa para sanear as contas públicas, mas na possibilidade de fazer crescer o país (o PIB) em anos de forte austeridade. Pelas intervenções que têm vindo a lume de especialistas na matéria, qualquer solução desemboca sempre na necessidade de mais dinheiro: para pagar o que devemos e para investir.
É realmente de lamentar que os ratos não usem dinheiro, não tenham mercados financeiros e agências de rating para que pudéssemos testar as soluções em laboratório.
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