Seria mais fácil um camelo passar pelo buraco d' agulha do que duvidar que o Governo de gestão fosse incapaz de fazer nomeações na Administração Pública. Em 37 anos de democracia nunca foi de modo diferente e até em situações eticamente mais graves do que a colocação de boys and girls em lugares do Estado. Por exemplo, no Governo de Santana Lopes, tendo já sido realizadas eleições, foi assinada uma Parceria Público-Privado por um Ministro que tinha posição de relevo em empresa privada do grupo SLN, grupo que é maioritário na empresa da parceria. E muitos outros casos deve haver envolvendo todos os partidos que passaram pelos Governos democraticamente eleitos. Entenda-se que isto não branqueia qualquer nomeação eticamente indevida levada a cabo por o actual Governo de gestão.
Adiante. O que interessa são as declarações do Dr. Passos Coelho que diz que lhe foram entregues e-mails onde são dadas ordens para que as ditas nomeações não fossem publicadas no Diário da República e que esses documentos vieram da Administração Pública.
O que se depreende destas declarações é que algum ou alguns funcionários da Administração Pública não afectos ao PS (e provavelmente simpatizantes do PSD, digo eu) quebraram o dever (ético, pelo menos) de sigilo profissional ao disponibilizarem a entidades externas documentos da Administração colocando-os ao serviço de uma campanha partidária.
Caso a actuação dos governantes seja a qualquer título reprovável existem canais e mecanismos para reportar tais factos.
O Dr. Passos Coelho deu um sinal extremamente grave ao pactuar com esta divulgação dos e-mails: os trabalhadores da Administração Pública simpatizantes de qualquer força partidária não afecta a um Governo do PSD podem disponibilizar documentos que não tenham classificação de segurança.
23 maio 2011
Feira do Livro Fórum Picoas
Entre 24 e 26 de Maio decorre a Feira do Livro no Fórum Picoas.
Sessão de autógrafos no dia 26 de Maio, entre as 12:30 e as 14, com os escritores PT. Vou estar presente. Apareçam.
Sessão de autógrafos no dia 26 de Maio, entre as 12:30 e as 14, com os escritores PT. Vou estar presente. Apareçam.
19 maio 2011
A arte de morder a língua
Cruzei-me com o senhor Palomar e depois de nos cumprimentarmos silenciosamente com um aperto de mão perguntei-lhe a opinião sobre o excessivo palavreado na contenda politico-partidária em Portugal (tenho muito em conta a sua opinião porque é pessoa muito culta e ponderada).
O senhor Palomar permaneceu em silêncio, o que não estranhei porque o senhor Palomar, avisadamente, morde a língua três vezes antes de fazer qualquer afirmação. À custa de tanto martirizar a língua certifica-se do acerto do que tem para dizer. Consta que passa meses calado.
O senhor Palomar preocupa-se ainda com a possibilidade de dizer ou não coisas. Explicou-me, em tempos, que quando todos falam demasiado o importante não é tanto dizer a coisa certa, mas dizê-la partindo de premissas e implicando consequências que dêem à coisa dita o seu máximo valor.
Enquanto permanecia expectante, mas paciente, pensei que na campanha eleitoral que se inicia neste fim-de-semana poderiam os candidatos, máquinas partidárias e afins seguirem o douto pensamento do senhor Palomar de morder a língua e a possibilidade de muitas vezes optarem pelo silêncio que implica uma arte do calar-se ainda mais difícil do que a arte do dizer.
Não emitiu uma única palavra o senhor Palomar durante o nosso breve encontro e sem uma palavra o senhor Palomar levou a mão esquerda ao chapéu, estendeu-me a direita, e partiu.
Segui também eu o meu caminho plenamente satisfeito com a resposta porque o silêncio-discurso está nas suas interrupções, ou seja, naquilo que de vez em quando se diz e que dá sentido àquilo que se cala.
(Baseado no texto "Acerca de morder a língua", de Italo Calvino in "Palomar")
O senhor Palomar permaneceu em silêncio, o que não estranhei porque o senhor Palomar, avisadamente, morde a língua três vezes antes de fazer qualquer afirmação. À custa de tanto martirizar a língua certifica-se do acerto do que tem para dizer. Consta que passa meses calado.
O senhor Palomar preocupa-se ainda com a possibilidade de dizer ou não coisas. Explicou-me, em tempos, que quando todos falam demasiado o importante não é tanto dizer a coisa certa, mas dizê-la partindo de premissas e implicando consequências que dêem à coisa dita o seu máximo valor.
Enquanto permanecia expectante, mas paciente, pensei que na campanha eleitoral que se inicia neste fim-de-semana poderiam os candidatos, máquinas partidárias e afins seguirem o douto pensamento do senhor Palomar de morder a língua e a possibilidade de muitas vezes optarem pelo silêncio que implica uma arte do calar-se ainda mais difícil do que a arte do dizer.
Não emitiu uma única palavra o senhor Palomar durante o nosso breve encontro e sem uma palavra o senhor Palomar levou a mão esquerda ao chapéu, estendeu-me a direita, e partiu.
Segui também eu o meu caminho plenamente satisfeito com a resposta porque o silêncio-discurso está nas suas interrupções, ou seja, naquilo que de vez em quando se diz e que dá sentido àquilo que se cala.
(Baseado no texto "Acerca de morder a língua", de Italo Calvino in "Palomar")
18 maio 2011
PHILIP ROTH, Prémio Internacional Booker 2011
Philip Roth é um dos expoentes da literatura mundial. Foi galardoado (merecidamente) com o Prémio Internacional Booker 2011 pelo conjunto da sua obra.
Pergunta: o prémio é uma caminhada para o Nobel, ou é o temor que a Academia ande à procure de autores menores?
Pergunta: o prémio é uma caminhada para o Nobel, ou é o temor que a Academia ande à procure de autores menores?
17 maio 2011
Lenda de Abel e Caim
Lenda
Abel e Caim encontraram-se depois da morte de Abel. Caminhavam pelo deserto e reconheceram-se de longe, porque ambos eram muito altos. Os irmãos sentaram-se na terra, fizeram uma fogueira e comeram. Guardavam silêncio, à maneira das pessoas cansadas quando declina o dia. No céu aparecia uma ou outra estrela, que ainda não recebera nome. À luz das chamas, Caim reparou na marca da pedra na testa de Abel e deixou cair o pão que ia levar à boca e pediu que lhe fosse perdoado o seu crime.
Abel respondeu:
- Tu mataste-me ou fui eu que te matei? Já não me lembro; aqui estamos juntos como dantes.
_ Agora sei na verdade que me perdoaste - disse Caim -, porque esquecer é perdoar. Eu tratarei também de esquecer.
Abel disse devagar:
- É verdade. Enquanto dura o remorso dura a culpa.
(Jorge Luís Borges, in Obras Completas)
O perdão não alivia o ofensor, engrandece o ofendido.
16 maio 2011
"A Ponte sobre o Drina", Ivo Andric, Cavalo de Ferro
Ando atrasado nas leituras mas a pilha de livros vai-se acumulando como em construção de ziguarate de Babel na direcção o céu. Desde que escrevo também a velocidade de leitura se tornou mais lenta estudando os textos e muitas vezes mastigando-os lentamente fazendo perdurar o sabor.
Daí o meu atraso nas opiniões sobre livros, daí só agora a leitura de um livro que todos recomendavam: "A Ponte sobre o Drina".
"A Ponte sobre o Drina", romance da autoria de Ivo Andric laureado com o Nobel em 1961 conta-nos a história de um povo, da região da Sérvia e Bósnia-Herzegovnia, que congrega diversa etnias e religiões turcos - europeus, judeus,ciganos - mas que eram um único povo ao longo de vários séculos partindo de pequenas histórias (poderia até ser considerado ser um livro de contos)- passadas desde a os tempos da decisão de construção da ponte no séc. XVI - e que é o elemento catalisador e agregador - terminando em 1914. E são histórias, episódios, de gente do povo, não dos poderosos.
Ivo Andric conta as historias na linguagem simples das lendas e narrativas que poderiam ser contadas oralmente (provavelmente o autor terá até passado a escrito o que a oralidade lhe transmitiu) pelas gentes nas Portas da Ponte. Sem análise histórica, sociológica ou política (não seria provavelmente essa a pretensão de Ivo Andric)a maior virtude do livro é a sua harmonia e equilíbrio do princípio ao fim, porquanto não é fácil elaborar um romance fazendo a compilação de histórias tão distintas dando-lhe uma sequência onde parece que todas as personagens se conhecem e habitam o mesmo espaço durante todo o tempo. É daqui que resulta a ideia de povo, as histórias deixam de ser daquelas pessoas para passarem a pertencer a toda uma mole humana que é o povo daquela região dos Balcãs.
Não conheço a restante obra deste autor (em português só existem este e outro romance, "O Pátio Maldito") de modo a emitir um juízo sobre a justeza da atribuição do Nobel, no entanto este "A Ponte sobre Drina" não terá tido sido daqueles livros que mais contribuiu para o prémio. A ler, se não houver outras prioridades com melhor garantia.
Como nota: seria a todos os títulos recomendável que os textos de contracapa não fossem tão gongóricos nos termos - pertence à categoria das obras incontornáveis da literatura mundial - porque resultam bacocos e pouco correspondem à verdade.
12 maio 2011
Os pentelhos e a economia ultraliberal - The pubic hair and the ultra-liberal economy
Eduardo Catroga em entrevista à SIC Notícias foi verdadeiro e honesto ao mostrar que é acérrimo defensor do modelo económico ultraliberal. Explanou para tal claramente as suas ideias? não; fez uma declaração eu sou um ultraliberal? não.
De um modo genuíno, directo e acessível ao entendimento dos menos informados declarou apenas que se andavam a discutir pentelhos (o meu corrector de erros do Word acaba de me assinalar a vermelho esta palavra porque não a conhece). É nas mais pequenas (finas, no sentido volumétrico do termo) coisas que se descobrem os grandes homens e os grandes desígnios. E já antevejo os debates na Assembleia da República em que o putativo Ministro das Finanças do próximo Governo: o senhor deputado José Sócrates vá p’ró ca… mais a defesa do Serviço Nacional de Saúde; o senhor deputado Francisco Louçã não me fo…com a sua mania de taxar os bancos.
Mas perguntar-se-á o menos informado dos cidadãos o que tem o pentelho (porra para o Word, olha dois erros) a ver com a economia ultraliberal: é bem conhecido que no Reino Unido a mais paradigmática defensora (e executante) do modelo económico ultraliberal era Margaret Tatcher, apelidada de Dama de Ferro, que tinha clips como pentelhos.
Isto anda tudo ligado.
(Isto merece ser traduzido, não pela minha opinião, mas porque a ciência económica deverá procurar soluções e ideias em locais menos ortodoxos)
Eduardo Catroga in SIC Notícias interview was truethfull and honest when he showed he is a great defender of the ultraliberal economic model. Did he explained in a clear mode his ideas? no; did he made a statement I am an ultraliberal? no.
In a genuine, direct and accessible way to the less informed he merely stated that people was only discussing pubic hair (my Word speller just signed an error on this word). It is in the smallest (thin) things you can find the great men and the great achievements. And I forsee already the Parliament debates where the putative Minister of Finances of the government to come will address to the deputies: Fuck off, Mr. Congressman José Sócrates and your defense of the Public Health; don’t bloody fucking me, Mr. Congressman Francisco Louçã with your mania of taxing the banks.
But the less informed citizens questioned themselves what’s the deal between pubic hair and the ultraliberal economy: it’s very well known that in United Kingdom the most committed defender (and executer) of this economy model was Margaret Tatcher, the so called Iron Dame, which had clips has pubic hair.
These things are all connected and come all together.
(This text was transleted from the original portuguese not because my oppinion matters, but because is adviseble economy science should start looking for solutions and ideas inside less orthodox places)
De um modo genuíno, directo e acessível ao entendimento dos menos informados declarou apenas que se andavam a discutir pentelhos (o meu corrector de erros do Word acaba de me assinalar a vermelho esta palavra porque não a conhece). É nas mais pequenas (finas, no sentido volumétrico do termo) coisas que se descobrem os grandes homens e os grandes desígnios. E já antevejo os debates na Assembleia da República em que o putativo Ministro das Finanças do próximo Governo: o senhor deputado José Sócrates vá p’ró ca… mais a defesa do Serviço Nacional de Saúde; o senhor deputado Francisco Louçã não me fo…com a sua mania de taxar os bancos.
Mas perguntar-se-á o menos informado dos cidadãos o que tem o pentelho (porra para o Word, olha dois erros) a ver com a economia ultraliberal: é bem conhecido que no Reino Unido a mais paradigmática defensora (e executante) do modelo económico ultraliberal era Margaret Tatcher, apelidada de Dama de Ferro, que tinha clips como pentelhos.
Isto anda tudo ligado.
(Isto merece ser traduzido, não pela minha opinião, mas porque a ciência económica deverá procurar soluções e ideias em locais menos ortodoxos)
Eduardo Catroga in SIC Notícias interview was truethfull and honest when he showed he is a great defender of the ultraliberal economic model. Did he explained in a clear mode his ideas? no; did he made a statement I am an ultraliberal? no.
In a genuine, direct and accessible way to the less informed he merely stated that people was only discussing pubic hair (my Word speller just signed an error on this word). It is in the smallest (thin) things you can find the great men and the great achievements. And I forsee already the Parliament debates where the putative Minister of Finances of the government to come will address to the deputies: Fuck off, Mr. Congressman José Sócrates and your defense of the Public Health; don’t bloody fucking me, Mr. Congressman Francisco Louçã with your mania of taxing the banks.
But the less informed citizens questioned themselves what’s the deal between pubic hair and the ultraliberal economy: it’s very well known that in United Kingdom the most committed defender (and executer) of this economy model was Margaret Tatcher, the so called Iron Dame, which had clips has pubic hair.
These things are all connected and come all together.
(This text was transleted from the original portuguese not because my oppinion matters, but because is adviseble economy science should start looking for solutions and ideas inside less orthodox places)
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