06 maio 2012

LUA CHEIA

Ontem o lobisomem vestiu o seu melhor fato de casaco de bandas acetinadas, colocou o laço no colarinho da camisa branca e fez refulgir os botões-de-punho de brilhantes; inspeccionou envaidecido a alva, forte e pontiaguda dentição. Sob a capa protectora da plácida lua cheia dirigiu-se ao repleto salão de baile; no meio da multidão vislumbrou donzela de rara beleza vestida com provocante vestido e toucado vermelho; convidou-a para dançar.
A rapariga deu um passo atrás trémula.
- Não posso, o meu pai disse para não me dar com más companhias. Que andasse apenas com zombies.

04 maio 2012

A Visita do Brutamontes, Jennifer Egan, Quetzal

A Visita do Brutamontes aparece-nos com duas cartas de recomendação: o prémio Pulitzer para Ficção (2011) e o National Book Critics Circle Award. Motivos mais do que suficientes para fazerem crescer água na boca e ao mesmo tempo desconfiar. O romance de Jennifer Egan, preenchido por uma galeria de personagens mais ou menos freaks, revisita o mundo do showbiz, da comunicação e do mediatismo, e desenrola-se no passado, presente e futuro, entre 1970 e 2020. Os ingredientes da obra são a conexão de tragédia, farsa, comédia que é comum a todos os personagens e que desemboca yara todos eles, mais tarde ou mais cedo, na visita do brutamontes. Como diz a crítica, uma novela de queda e presumível, (mas improvável, acrescento eu), redenção.
A estrutura narrativa, solidamente edificada na moda do romance norte-americano, desenvolve-se por saltos temporais, de personagens e de situações, deixando, que a ligação entre eles seja feita pelo leitor, encurralando-o, por vezes, em becos sem saída, que só a visita do brutamontes deslindará. O excessivo detalhe e pormenorização retiram alguma força ao impacte que a autora eventualmente queira provocar no leitor. Que o romance é uma provocação aos que habitam o mundo das indústrias cinematográfica e discográfica e a toda uma sociedade que apresenta esse mundo como a forma mais rápida e fácil de enriquecer.
A leitura do romance remete-nos para um déja vu, no sentido literal do termo, desta sociedade norte-americana: não é mais do que um Californication passado a escrito, com menos cenas de cama e de sexo.

01 maio 2012

VISÃO DA ACTUALIDADE DA SEMANA

- Eleições presidenciais em França I - Hollande, candidato socialista, pode querer ser apenas presidente de França e para isso basta-lhe ter mais do que 50% dos votos. Hollande tem a oportunidade de ficar para a história da reconstrução europeia, para isso terá de rever a "política de alianças" dentro da Comunidade Europeia. Quererá ou será capaz de o fazer?

- Eleições presidenciais em França II - Com a expressiva votação na candidata de extrema-direita, quase 20%, Hollande e Sarkozy querem seduzir este eleitorado para a segunda volta. Com que promessas? com que propostas? O problema não é haver raposas, que são bichos da natureza, o problema está em, por vontade própria, metê-las dentro do galinheiro.

- Ausência das comemorações do 25 de Abril - A ausência da Associação 25 de Abril, de Mário Soares e de Manuel Alegre, das comemorações oficiais do 25 de Abril têm contornos e pesos distintos. Em comum têm o facto da não comparência, no mesmo local, e no mesmo acto, em que estava o governo. Não concordo com a opção mas que ela teve efeitos de discussão sobre o significado da data, teve; e que deu azo a que o PM, mais uma vez, desse mostras da sua (falta) de categoria política, isso deu.

- 1 de Maio - com o desemprego em quase 15% é irónico o dia ter o nome do Dia do Trabalhador.

- Frase da semana - Os subsídios de Natal e de Férias serão repostos a 25% ao ano, a partir de 2015, completando-se em 2018. Será lapso sr. Ministro das Finanças E a segir a 2018 vem 2019. Como dizia Karl Valentin no título da sua peça, E não se pode extreminá-los?

- Livro da semana - Moby Dick, de Herman Melville (um dos melhores romances de sempre). A obsessão do capitão Ahab pelo cachalote branco emparelha com a obsessão do actual governo pelas políticas de desmantelamento do Estado Social. O capitão tem desculpa, que a sua obsessão é quase demencial; o governo tem culpa agravada, pois é consciente.

25 abril 2012

25 de Abril

Ouvi ontem um jovem e presunçoso deputado da Nação (eu digo o nome: Filipe Menezes, filho)afirmar que o 25 de Abril não é uma data ideológica.
Quero crer que o jovem e presunçoso deputado da Nação já foi pelo menos ao dicionário ver o que significa ideologia; que já terá passado os olhos por algum manual (talvez daqueles tipo Informática para Tótós) onde se faça a distinção entre democracia e totalitarismo. Tê-lo feito para atacar os comunistas, mas esqueceu-se que no 25 de Abril se derrubou um regime totalitário que durou 48 anos; e que nessa data se opôs de forma determinada a ideologia da liberdade à ideologia da opressão.
Possivelmente o jovem e presunçoso deputado da Nação, quererá dizer que hoje não é a liberdade que está em causa, que a liberdade é um dado adquirido e que existe em estado puro na natureza. Talvez tenha de ler mais uns quantos livros para entender que liberdade não se confina à expressão de pensamento e ausência de polícia política. Mas,se não quiser ler, bastará escutar o Sérgio Godinho,«ai, só há liberdade a sério, quando houver a paz, o pão, a habitação, a saúde, a educação». E para obter tudo isto há que fazer escolhas ideológicas.
O 25 de Abril é a data mais marcadamente ideológica que se celebra em Portugal, aquela que lembrará sempre que é preciso melhorar a democracia, o sistema político, a qualidade dos políticos, porque haverá sempre espaço para MAIS LIBERDADE PARA O POVO.

24 abril 2012

Faz hoje anos, 38 anos depois.

Pertencia eu à equipa de rugby do Técnico. Participámos às 8 da noite num jogo de treino com a selecção nacional que no dia seguinte deveria partir para a Polónia onde iria ter um jogo oficial. Depois do jogo, eu e mais uns santos (queria escrever quantos, mas o corretor colocou santos, vou deixar assim) fomos até à Imperial do Campo Pequeno comer um bitoque completo: bife, batatas, salsichas, fiambre e queijo. De seguida partimos a correr as capelinhas da noite, tendo terminado na Trindade pela uma da manhã. De regresso a casa, sem vislumbrar facto anómalo, deitei-me no convencimento que no dia seguinte me apresentaria na entrada do Instituto Superior Técnico para deixar o cartão de controlo das entradas (por acaso o tal controlo só foi erradicado no dia 26 de Abril, a instâncias do Prof. Brotas).

Logo à noite completam-se 38 anos sobre a noite em que comi o meu último bitoque em ditadura. Estranhamente vai-me parecendo que a carne se está a tornar tão rija* como antigamente.

*Metáfora, o bife da Imperial do Campo Pequeno não era rijo.

23 abril 2012

Meridiano de Sangue, Cormack McCarthy

Cormack McCarthy denominou, ele próprio, um conjunto de três livros de Trilogia de Fronteira porque passados na região fronteiriça entre os Estados-Unidos e o México. Estranha forma de começar este texto quando já de seguida se diz que na mencionada trilogia Meridiano de Sangue não se inclui. Só que em toda a sua obra, McCarthy dá a sensação de em espírito nunca abandonar essa região de fronteira: a física e a mental. Meridiano de Sangue não foge à regra: um bando de homens "brancos" (entre aspas, porque também, integra um negro e índios)percorre a zona fronteira entre os EUA e o México com um rumo vago, com um destino incerto e um objectivo que nunca é verdadeiramente definido, a não ser o da sobrevivência. Mesmo assim a vida não é tida em conta, nem em grande consideração. A dos outros e a própria.
Cormack McCarthy relata o deambular do bando de Glantone, do Kid e do Juiz, por uma terra sem lei que não seja a força, o terror, a ausência de humanidade. E esta é a fronteira mental, o moral, que Cormack McCarthy traça para nós vermos de que lado pomos o pé. Mas os seres humanos não são os protagonistas desta viagem alucinada. O romance é uma longa descrição de uma terra inóspita e violenta, feita de deserto e sangue, desfiladeiros alcantilados e suor, frio de enregelar e ossadas, sol abrasivo e escalpes, animais necrófagos e seres humanos que lhes providenciam alimento. No meio da paisagem, como outros animais evoluem bandos de desperados, milícias, índios, populações sem defesas contra os elementos naturais e os homens sem valores. A terra O bando é apenas mais um elemento da natureza que serve para nos guiar através de uma escrita violenta que reflecte à perfeição a violência e a rudeza dos lugares, do ar, da noite, do dia, dos homens.

Meridiano de Sangue, com subtítulo O Crepúsculo do Velho Oeste (o crepúsculo é também uma fronteira) porventura o melhor romance de Cormack McCarthy.

17 abril 2012

VISÃO DA ACTUALIDADE DA SEMANA

- Reforma da Segurança Social - Medina Carreira resumiu a política social deste governo: contabilidade e tesouraria social. Paga-se o que se puder, enquanto se puder. O governo, expondo desta vez um ministro do CDS, tem anunciado medidas avulsas sobre a Segurança Social, que visam tão somente preparar os portugueses para a extinção do Estado Social, em linha com as teoria e práticas agora em moda na Europa, justificando a crise com os gastos na Segurança Social.

- O Primeiro-Ministro quer aproveitar a crise para reformar o Estado - Se reformar é pôr na ordem, não se deve esperar por épocas de crise; se reformar, é aligeirar a máquina, qualquer ocasião é boa; se reformar é modernizar, não parece que altura de crise seja a mais propícia. Percebe-se o dizer do senhor Primeiro-Ministro: em época de crise os portugueses aguentam tudo, porque a crise é sempre a desculpa.

- 100 anos do naufrágio do Titanic - O navio inafundável tornou-se um mito, precisamente porque o Homem tem ciclicamente visões de que conseguiu dominar a matéria, a natureza e o Mundo. Preversamente a máquina perfeita foi derrotada por um elemento da natureza e nem sequer terminou a sua viagem inaugural. À atenção de todos aqueles que pensam que, nos sistemas sociais, é chegado o fim da História.

- Frase da semana - A verdade é a soma das partes, Jorge Jesus. Novo axioma matemático...ou filosófico.

- Livro da semana - Retorno, Dulce Maria Cardoso. História de retornados das ex-colónias, de devolvidos à procedência, e agora amanhem-se. Não seremos todos nós (quase todos( retornados dentro do mesmo espaço, retornados a vidas difíceis de países sub-desenvolvidos que julgávamos não tornarem a ser possíveis..