"se não esse deus ou esse nada volta-lhe as costas e cala-se. É por esta razão que os verdadeiros poetas, os inspirados, levam uma vida diferente da dos outros homens, geralmente irregular,às vezes extravagante, e nunca feliz.", de Gonzalo Torrente Ballester, in Dafne e Fantasias.
De onde vem este sentimento, antigo como os tempos, que a obra-de-arte é fruto da dor e do desassossego?
16 fevereiro 2011
15 fevereiro 2011
"A rapariga dinamarquesa", de David Ebershoff, Porto Editora
Há dias assim. O azar bate à porta e não há nada a fazer.
Normalmente pego num livro e, mesmo que em trabalhos forçados, levo-o até ao fim. Raros, raríssimos são aqueles que deixo a meio.
"A rapariga dinamarquesa", de David Ebershoff, 2000, editado pela "Porto Editora" em 2010, atraiu-me pela sinopse e curriculum do autor, bem como pelo tema tratado, a operação para mudança de sexo levada a cabo por um pintor dinamarquês Einer Wergener, na primeira metade do séc. XX e caiu, talvez sem culpa, neste meu pequeno catálogo de livros com leitura por acabar.
Apesar de ser pouco curial dar uma opinião definitiva sobre algo que não se conhece (pelo menos na totalidade), atrevo-me a reflectir sobre as primeiras 100 páginas do livro.
O autor, David Ebershoff, tem um bom começo, mas de seguida a história desenvolve-se numa espécie de círculos concêntricos numa tentativa de explicar os primórdios da situação que desembocará no que (antevejo) será o desfecho. Esses círculos seriam justificáveis se cada um deles aportasse realmente algo de novo e, metaforicamente, poderiam até ser entendidos como cada uma das camadas da personalidade de Einer que se vai desvendando conforme se vai interiorizando (aliás, exteriorizando) a vontade de mudança de género.
De notar, ainda, que um tema como este, acrescendo-lhe a época em que se passa, coloca um confronto pessoal com o próprio e com o exterior que necessitaria de uma escrita com uma intensidade dramática muito mais intensa desde o princípio ao fim do livro e que está praticamente ausente nas primeiras 100 páginas.
Há dias assim, vou colocar o livro na estante no lugar dos não-lidos. Merece uma segunda oportunidade porque o livro tem uma personagem que me parece fascinante, Greta, a mulher do pintor, Greta.
Normalmente pego num livro e, mesmo que em trabalhos forçados, levo-o até ao fim. Raros, raríssimos são aqueles que deixo a meio.
"A rapariga dinamarquesa", de David Ebershoff, 2000, editado pela "Porto Editora" em 2010, atraiu-me pela sinopse e curriculum do autor, bem como pelo tema tratado, a operação para mudança de sexo levada a cabo por um pintor dinamarquês Einer Wergener, na primeira metade do séc. XX e caiu, talvez sem culpa, neste meu pequeno catálogo de livros com leitura por acabar.
Apesar de ser pouco curial dar uma opinião definitiva sobre algo que não se conhece (pelo menos na totalidade), atrevo-me a reflectir sobre as primeiras 100 páginas do livro.
O autor, David Ebershoff, tem um bom começo, mas de seguida a história desenvolve-se numa espécie de círculos concêntricos numa tentativa de explicar os primórdios da situação que desembocará no que (antevejo) será o desfecho. Esses círculos seriam justificáveis se cada um deles aportasse realmente algo de novo e, metaforicamente, poderiam até ser entendidos como cada uma das camadas da personalidade de Einer que se vai desvendando conforme se vai interiorizando (aliás, exteriorizando) a vontade de mudança de género.
De notar, ainda, que um tema como este, acrescendo-lhe a época em que se passa, coloca um confronto pessoal com o próprio e com o exterior que necessitaria de uma escrita com uma intensidade dramática muito mais intensa desde o princípio ao fim do livro e que está praticamente ausente nas primeiras 100 páginas.
Há dias assim, vou colocar o livro na estante no lugar dos não-lidos. Merece uma segunda oportunidade porque o livro tem uma personagem que me parece fascinante, Greta, a mulher do pintor, Greta.
14 fevereiro 2011
"Património", de Philip Roth, Edições D. Quixote
O livro é demasiado conhecido e publicado em 2008 já teve as recensões e críticas suficientes para agora voltar ao mesmo.
No entanto, tendo e atenção os casos recentes de idosos encontrados mortos ao abandono, a história de "Património", que é um testemunho pessoal do próprio Philip Roth, tem o condão de, de uma forma aparentemente "ligeira", ao correr da pena, contando episódios "desinteressantes" da vida de um velho, se revelam de uma crueza e de uma contundência extremas.
Oiço falar da 3ª e 4ª idades como uma das grandes oportunidades de negócio do futuro, sobretudo, na área dos cuidados de saúde secundários e acompanhamento (no significado de fazer companhia). Mas, para além da forma desumanizada como o assunto é abordado, este negócio é um nicho de mercado, pois cobrirá 10%, se tanto, dos 600.000 idosos em Portugal, muitos vivendo em áreas desertificadas.
Ler o livro de Roth, nesta ocasião, para além de uma escrita e tradução excelentes, pode levar-nos a rever o(s) relacionamento(s) humano(s).
No entanto, tendo e atenção os casos recentes de idosos encontrados mortos ao abandono, a história de "Património", que é um testemunho pessoal do próprio Philip Roth, tem o condão de, de uma forma aparentemente "ligeira", ao correr da pena, contando episódios "desinteressantes" da vida de um velho, se revelam de uma crueza e de uma contundência extremas.
Oiço falar da 3ª e 4ª idades como uma das grandes oportunidades de negócio do futuro, sobretudo, na área dos cuidados de saúde secundários e acompanhamento (no significado de fazer companhia). Mas, para além da forma desumanizada como o assunto é abordado, este negócio é um nicho de mercado, pois cobrirá 10%, se tanto, dos 600.000 idosos em Portugal, muitos vivendo em áreas desertificadas.
Ler o livro de Roth, nesta ocasião, para além de uma escrita e tradução excelentes, pode levar-nos a rever o(s) relacionamento(s) humano(s).
13 fevereiro 2011
"O Gato", de Georges Simenon e os casos dos idosos mortos ao abandono
Os casos de três idosos sós encontrados mortos nas suas residências ao fim de bastane tempo lembrou-me um livro de Georges Simenon, "O Gato" (existe em português, possivelmente em alfarrabistas), novela que desde que a li fiquei com a firme ideia de que se debruçava sobre a solidão humana.
Trata-se da história de um casal, na casa dos 70 anos (perto da morte pois quando o livro foi escrito, 1967, a esperança de vida não é a que é hoje), partilhando a mesma habitação, deitando-se na mesma cama, apenas se comunica através de pequenas notas escritas e através das implicações mútuas contínuas. Cada membro do casal tem o seu animal de estimação, um papagaio e um GATO, e ambos se entretêm em velhacarias ao animal oposto para atingirem e magoarem o respectivo dono.
Georges Simenon descreve,com uma linearidade contundente uma relação e um ambiente em que não se troca uma palavra (falada). Por razões óbvias não desvendo o final da novela, mas digo que é uma das mais espantosas obras que li até hoje e que perante os casos citados no início deste texto me deixa na perplexidade de considerar o livro "O Gato" um livro sobre a solidão, ou se será um livro sobre dois seres humanos que, percebendo que o são, se acompanham até ao fim da vida apesar das animosidades existentes entre ambos.
"O Gato", da fase "grave" (assim denominada pelo próprio)de Georges Simenon, mostra que as sociedades modernas não podem marginalizar alguns dos seus membros (e os velhos na sociedade ocidental são cada vez mais) mesmo que os "odeiem".
Trata-se da história de um casal, na casa dos 70 anos (perto da morte pois quando o livro foi escrito, 1967, a esperança de vida não é a que é hoje), partilhando a mesma habitação, deitando-se na mesma cama, apenas se comunica através de pequenas notas escritas e através das implicações mútuas contínuas. Cada membro do casal tem o seu animal de estimação, um papagaio e um GATO, e ambos se entretêm em velhacarias ao animal oposto para atingirem e magoarem o respectivo dono.
Georges Simenon descreve,com uma linearidade contundente uma relação e um ambiente em que não se troca uma palavra (falada). Por razões óbvias não desvendo o final da novela, mas digo que é uma das mais espantosas obras que li até hoje e que perante os casos citados no início deste texto me deixa na perplexidade de considerar o livro "O Gato" um livro sobre a solidão, ou se será um livro sobre dois seres humanos que, percebendo que o são, se acompanham até ao fim da vida apesar das animosidades existentes entre ambos.
"O Gato", da fase "grave" (assim denominada pelo próprio)de Georges Simenon, mostra que as sociedades modernas não podem marginalizar alguns dos seus membros (e os velhos na sociedade ocidental são cada vez mais) mesmo que os "odeiem".
"Prémio Autores 2011 SPA/RTP
Cruz, Mota, Tavares e Tordo nomeados para prémio SPA/RTP
Afonso Cruz, Gonçalo M. Tavares, António Mota e João Tordo estão entre os nomeados para o Prémio Autores 2011 SPA/RTP.
Afonso Cruz e António Mota foram nomeados na categoria «Literatura - Melhor Livro de Literatura Infanto-Juvenil», com os livros «A Contradição Humana» (texto e ilustrações de Afonso Cruz, publicado pela Caminho em 2010) e «Pinguim» (António Mota, Gailivro 2010, ilustrações de Alberto Faria).
Gonçalo M. Tavares e João Tordo foram nomeados com os livros «Uma Viagem à Índia» (Caminho 2010) e «O Bom Inverno» (Dom Quixote 2010) na categoria «Literatura - Melhor Livro de Ficção Narrativa».
Afonso Cruz, Gonçalo M. Tavares, António Mota e João Tordo estão entre os nomeados para o Prémio Autores 2011 SPA/RTP.
Afonso Cruz e António Mota foram nomeados na categoria «Literatura - Melhor Livro de Literatura Infanto-Juvenil», com os livros «A Contradição Humana» (texto e ilustrações de Afonso Cruz, publicado pela Caminho em 2010) e «Pinguim» (António Mota, Gailivro 2010, ilustrações de Alberto Faria).
Gonçalo M. Tavares e João Tordo foram nomeados com os livros «Uma Viagem à Índia» (Caminho 2010) e «O Bom Inverno» (Dom Quixote 2010) na categoria «Literatura - Melhor Livro de Ficção Narrativa».
"As dez figuras negras", de Agatha Christie
Uma amiga minha colocou ontem no seu blogue Refúgio dos livros (http://refugio-dos-livros.blogspot.com/) uma opinião sobre "Um Crime no Expresso Oriente",de Agatha Christie e diz que se prepara para ler "As dez figuras negras", o qual, para mim, sem ter lido toda a sua obra se trata do seu melhor livro.
Ao longo da sua carreira literária, Agatha Christie explorou, com inegável êxito, uma fórmula de sucesso que se baseia:
1 - ter um personagem com dotes e apetências especiais para desvendar mistérios (mais mistérios, do que crimes)- Poirot e Miss Marple;
2 - ter, a par do investigador principal, um "acompanhante" (sempre menos dotado) que o confronta intelectualmente para que nos diálogos aquele possa expor as suas teorias;
3 - Concentrar os presumíveis culpados num universo restrito do qual não podem "escapar" acabando, por vezes, no cliché de todos reunidos numa sala onde na cena final o investigador leva a asistência (leitores e outros personagens da história a descobrirem o culpado, porquanto ele investigador já estava na posse (e leitor também deveria estar) das provas irrefutáveis da culpa.
Agatha Christie não escreveu grandes romances (policiais, não gosto do termo), mas o que fez, fez bem feito. Criou duas personagens que lhe permitiram exteriorizar toda a sua imaginação (que para escrever cerca de 85 livros, seria bastante fértil), uma, julgo eu, o seu émulo,Miss Marple, outra a sua antítese,Hercule Poirot.
No entanto, o livro que mais aprecio é "As dez figuras negras" ("The ten little niggers", título original que, já então, 1940, passou a "And then they were no more",devido a polémicas racistas, no qual a autora deixa os "criminosos" num espaço concentacionário, uma ilha, e desporovidos de "protecção", os nossos habituais investigadores. Aqui o desvendar do mistério está totalmente entregue nas mãos (mente) do leitor e para o qual não há um contra-ponto para em racicínios lógicos ir excluindo hipóteses aproxiando-se da verdade final.
Muito se tem escrito sobre a caracterização e descrição psicológica das personagens de A.Christie, quer dos "detectives", quer dos outros, na qual se baseia muitas vezes a motivação dos crimes e a resolução dos mesmos. Uma das razões pela qual considero "As dez figuras negras" o melhor livro de A. Christie é por ser aquele em que a psicologia (do caso) e das personagens me parece a mais conseguida (até por se libertar da caracterização de Poirot e Miss Marple, que julgo intencionalmente mais caricaturadas do que caracteizadas).
Com um golpe-de-asa, que não vislumro por que não aconteceu, A. Christie passou ao lado de um excelente romance, caindo ela prórpria no impasse final de "não saber" como desvendar o mitério, fazendo-o de um modo que não lhe é habitual.
No blogue da minha amiga escrevi em comentário que Agatha Christie é a Enyd Blyton (a dos livros dos 5) dos mais crescidos, o que tem como significado: sem dúvida a ler, para passar a voos mais altos).
A ASA teve a iniciativa, já há algum tempo, de reeditar as obras de Agatha Chritie, agrupando-as por Séries - Poirot, Miss Marple, Outros.
Hoje está a chover, se tiver à mão "O Assassinato de Roger Ackroyd", "Um corpo na Biblioteca", ou até a série Poirot que passa diariamente na RTP Memória, aproveite, que não é tempo desperdiçado.
Voltarei aos livros "policiais" com o meu preferido da galeria dos mais conhecidos.
Ao longo da sua carreira literária, Agatha Christie explorou, com inegável êxito, uma fórmula de sucesso que se baseia:
1 - ter um personagem com dotes e apetências especiais para desvendar mistérios (mais mistérios, do que crimes)- Poirot e Miss Marple;
2 - ter, a par do investigador principal, um "acompanhante" (sempre menos dotado) que o confronta intelectualmente para que nos diálogos aquele possa expor as suas teorias;
3 - Concentrar os presumíveis culpados num universo restrito do qual não podem "escapar" acabando, por vezes, no cliché de todos reunidos numa sala onde na cena final o investigador leva a asistência (leitores e outros personagens da história a descobrirem o culpado, porquanto ele investigador já estava na posse (e leitor também deveria estar) das provas irrefutáveis da culpa.
Agatha Christie não escreveu grandes romances (policiais, não gosto do termo), mas o que fez, fez bem feito. Criou duas personagens que lhe permitiram exteriorizar toda a sua imaginação (que para escrever cerca de 85 livros, seria bastante fértil), uma, julgo eu, o seu émulo,Miss Marple, outra a sua antítese,Hercule Poirot.
No entanto, o livro que mais aprecio é "As dez figuras negras" ("The ten little niggers", título original que, já então, 1940, passou a "And then they were no more",devido a polémicas racistas, no qual a autora deixa os "criminosos" num espaço concentacionário, uma ilha, e desporovidos de "protecção", os nossos habituais investigadores. Aqui o desvendar do mistério está totalmente entregue nas mãos (mente) do leitor e para o qual não há um contra-ponto para em racicínios lógicos ir excluindo hipóteses aproxiando-se da verdade final.
Muito se tem escrito sobre a caracterização e descrição psicológica das personagens de A.Christie, quer dos "detectives", quer dos outros, na qual se baseia muitas vezes a motivação dos crimes e a resolução dos mesmos. Uma das razões pela qual considero "As dez figuras negras" o melhor livro de A. Christie é por ser aquele em que a psicologia (do caso) e das personagens me parece a mais conseguida (até por se libertar da caracterização de Poirot e Miss Marple, que julgo intencionalmente mais caricaturadas do que caracteizadas).
Com um golpe-de-asa, que não vislumro por que não aconteceu, A. Christie passou ao lado de um excelente romance, caindo ela prórpria no impasse final de "não saber" como desvendar o mitério, fazendo-o de um modo que não lhe é habitual.
No blogue da minha amiga escrevi em comentário que Agatha Christie é a Enyd Blyton (a dos livros dos 5) dos mais crescidos, o que tem como significado: sem dúvida a ler, para passar a voos mais altos).
A ASA teve a iniciativa, já há algum tempo, de reeditar as obras de Agatha Chritie, agrupando-as por Séries - Poirot, Miss Marple, Outros.
Hoje está a chover, se tiver à mão "O Assassinato de Roger Ackroyd", "Um corpo na Biblioteca", ou até a série Poirot que passa diariamente na RTP Memória, aproveite, que não é tempo desperdiçado.
Voltarei aos livros "policiais" com o meu preferido da galeria dos mais conhecidos.
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