O formalismo é aquilo que permite fechar os olhos à ética e à moral. Cumpridos todos os preceitos, que é como quem diz todas as formas, qualquer acto de certeza é pelo menos não-ilegal. Mas a lei, bastas vezes, fica aquém da ética e da moral porque estas são umas leis mais leis que cada um adopta para si próprio. Quem se limita a cumprir a lei não é necessariamente boa pessoa, pode ser medroso, temente de punições e não ter oportunidades de cometer infracções. Quem se rege pela ética, cumpre de certeza a lei, não por medo, mas por ser o correcto e por vontade própria; e cumpre mais do que a lei porque se impôs códigos de conduta consentâneos com uma vivência exemplar em sociedade.
Quando as regras éticas e morais são vertidas em leis, as mulheres e homens de ética superam-se e descobrem formas de regras ainda mais exemplares. É o seguimento da ética e da moral que legitima a posição de cada um na sociedade, e não apenas o mero, escrupuloso e formal cumprimento da lei.
Na Caixa Geral de Depósitos, na EDP, nas Águas de Portugal foram seguidos todos os formalismos de nomeação? Foram. Mas são imorais.
É do formalismo das campanhas eleitorais fazer promessas que na governação não são cumpridas? É, não viola qualquer lei. Mas não é ético.
Preferia mil vezes que a Constituição previsse punições para declarações de um candidato a Primeiro-Ministro, tais como é mentira que vá cortar o décimo terceiro mês, não quero ser eleito para dar emprego aos amigos quando não cumpridas, do que um tecto para o déficite orçamental.
12 janeiro 2012
10 janeiro 2012
VISÃO DA ACTUALIDADE DA SEMANA
Conselho Superior da EDP - É bem mais vergonhosa a nomeação da nova equipa de gestão da EDP do que a pretensa fuga da família Soares dos Santos para a Holanda. É-o, porque se na distribuição alimentar podemos boicotar (é um disparate) o Pingo Doce e optar por outra marca também sediada fora de Portugal, ou pelas mercearias tradicionais, na energia eléctrica somos obrigados a consumir dali, da EDP (há concorrência tímida da parte de uma empresa espanhola). Além de uma parte dos vencimentos da EDP ainda serem pagos por todos nós, é notória a maior falta de vergonha na face angelical do senhor Primeiro-Ministro.
Déficite de 2011 - Prognósticos só no fim do jogo, dizia sabiamente João Pinto, antigo capitão do F.C.Porto. Fez história com esta frase. E história fará este governo até acertar no déficite que lhe convém. Não vale a pena fazer previsões do déficite, o governo aguarda mesmo o fim do jogo e à cautela vai prometendo novas medidas de austeridade.
Frase da semana - O Presidente da EDP afirmou que a escolha dos novos administradores é da exclusiva responsabilidade dos accionistas. Não poderia ser de outro modo. Que outras engenhosas maneiras imagina ele pudessem existir? Estaria a pensar naqueles métodos que mostram as influências do poder político na determinação das escolhas? É bom não esquecer que os accionistas, especialmente os privados, estão sempre dispostos a considerarem as políticas sugestões. Depois cobram com juros.
Livro da semana - O Cemiterio de Praga, de Umberto Eco, recomendado aos não-maçons para saberem de onde vem o medo da Maçonaria.
Déficite de 2011 - Prognósticos só no fim do jogo, dizia sabiamente João Pinto, antigo capitão do F.C.Porto. Fez história com esta frase. E história fará este governo até acertar no déficite que lhe convém. Não vale a pena fazer previsões do déficite, o governo aguarda mesmo o fim do jogo e à cautela vai prometendo novas medidas de austeridade.
Frase da semana - O Presidente da EDP afirmou que a escolha dos novos administradores é da exclusiva responsabilidade dos accionistas. Não poderia ser de outro modo. Que outras engenhosas maneiras imagina ele pudessem existir? Estaria a pensar naqueles métodos que mostram as influências do poder político na determinação das escolhas? É bom não esquecer que os accionistas, especialmente os privados, estão sempre dispostos a considerarem as políticas sugestões. Depois cobram com juros.
Livro da semana - O Cemiterio de Praga, de Umberto Eco, recomendado aos não-maçons para saberem de onde vem o medo da Maçonaria.
08 janeiro 2012
O PALHAÇO
O palhaço é um ser discreto, lento, que rola nas estradas portuguesas, pelo qual não se dá conta a não ser quando ele não se desenrasca e enrasca a velocidade ou a manobra automobilística de outrem. É um ser que se encontra com frequência na faixa do meio, ou na da esquerda, das auto-estradas, que descansa nos cruzamentos enquanto houver outros veículos no horizonte longínquo. Os palhaços são seres de sangue frio, porquanto têm a tendência em sair das suas luras em dias de sol e têm um tropismo pela volta-dos-tristes.
Pela pequena descrição feita, não se pense que o palhaço não tem momentos de ousadia e de defesa do território, nomeadamente quando não deixa que outro veículo se meta à má-fila ultrapassando ufanamente uma série de papalvos, palhaços, que estão pacientemente numa fila de trânsito à espera que ela avance. A maior parte das vezes o instinto de defesa repercute-se na buzina.
Este ser, o palhaço, é apenas do sexo masculino. A palhaça não existe. Antigamente existia a dona-de-casa - devias estar em casa a coser meias, era o que se ouvia no trânsito - como simétrico feminino do palhaço, mas parece que o termo caiu um desuso, porquanto a dona-de-casa, principalmente os elementos mais jovens, desataram a chamar palhaço a torto e a direito a qualquer condutor que não lhes faculte rapidamente a pretendida passagem, mesmo que não devida.
Um palhaço para se reproduzir não acasala com um ser da própria espécie e só terá palhacinhos se estes forem do sexo masculino e fracos. Os palhacinhos, enquanto jovens condutores, terão a tentação de abandonar a espécie, mas depois vão ao sítio.
O ser-se palhaço não é inerente ao indivíduo em si, é antes resultado de uma relativização social, ou seja: o elemento mais forte tem a prorrogativa de chamar palhaço ao elemento mais fraco, e um palhaço pode momentaneamente deixar de o ser se encontrar um elemento mais fraco do que ele; assim como o elemento mais forte pode por instantes passar a ser palhaço se aparecer um ainda mais forte.
Mas existem comportamentos desviantes. Alguns palhaços, quando se acham em posição de fuga, retribuem o ápodo e, os mais ágeis, chegam mesmo a usar os dedos, o do meio ao alto, ou o indicador junto à testa. É de referir que esta prática do dedo do meio levantado ao alto, por vezes com os dois que lhe são contíguos encolhidos, e a verbalização, vai pr'ó..., está a ser muito mimetizada pelos elementos femininos da comunidade automobilística.
O palhaço tem espécies que se lhe assemelham: o ceguinho. Estudos existem que levam a crer, mas ainda sem conclusões, que o ceguinho é afinal um palhaço que não vê. O problema do ceguinho não é não ver, é estar convencido de que vê.
Os seguidores de Darwin têm em Portugal os seus Galápagos se quiserem debruçar-se sobre a evolução das espécies automobilísticas e de como os seus comportamentos mais agressivos se perpetuam, desenvolvem e se alteram.
Ao não beba, não acelere, não fale ao telemóvel, etc., deveria juntar-se no breviário das práticas de boa condução o NÃO INSULTE.
Pela pequena descrição feita, não se pense que o palhaço não tem momentos de ousadia e de defesa do território, nomeadamente quando não deixa que outro veículo se meta à má-fila ultrapassando ufanamente uma série de papalvos, palhaços, que estão pacientemente numa fila de trânsito à espera que ela avance. A maior parte das vezes o instinto de defesa repercute-se na buzina.
Este ser, o palhaço, é apenas do sexo masculino. A palhaça não existe. Antigamente existia a dona-de-casa - devias estar em casa a coser meias, era o que se ouvia no trânsito - como simétrico feminino do palhaço, mas parece que o termo caiu um desuso, porquanto a dona-de-casa, principalmente os elementos mais jovens, desataram a chamar palhaço a torto e a direito a qualquer condutor que não lhes faculte rapidamente a pretendida passagem, mesmo que não devida.
Um palhaço para se reproduzir não acasala com um ser da própria espécie e só terá palhacinhos se estes forem do sexo masculino e fracos. Os palhacinhos, enquanto jovens condutores, terão a tentação de abandonar a espécie, mas depois vão ao sítio.
O ser-se palhaço não é inerente ao indivíduo em si, é antes resultado de uma relativização social, ou seja: o elemento mais forte tem a prorrogativa de chamar palhaço ao elemento mais fraco, e um palhaço pode momentaneamente deixar de o ser se encontrar um elemento mais fraco do que ele; assim como o elemento mais forte pode por instantes passar a ser palhaço se aparecer um ainda mais forte.
Mas existem comportamentos desviantes. Alguns palhaços, quando se acham em posição de fuga, retribuem o ápodo e, os mais ágeis, chegam mesmo a usar os dedos, o do meio ao alto, ou o indicador junto à testa. É de referir que esta prática do dedo do meio levantado ao alto, por vezes com os dois que lhe são contíguos encolhidos, e a verbalização, vai pr'ó..., está a ser muito mimetizada pelos elementos femininos da comunidade automobilística.
O palhaço tem espécies que se lhe assemelham: o ceguinho. Estudos existem que levam a crer, mas ainda sem conclusões, que o ceguinho é afinal um palhaço que não vê. O problema do ceguinho não é não ver, é estar convencido de que vê.
Os seguidores de Darwin têm em Portugal os seus Galápagos se quiserem debruçar-se sobre a evolução das espécies automobilísticas e de como os seus comportamentos mais agressivos se perpetuam, desenvolvem e se alteram.
Ao não beba, não acelere, não fale ao telemóvel, etc., deveria juntar-se no breviário das práticas de boa condução o NÃO INSULTE.
03 janeiro 2012
VISÃO DA ACTUALIDADE DA SEMANA
Privatização da EDP - Há um filme com o título Vêm aí os Russos, quando na Guerra Fria se temia a invasão do "Ocidente" pelos soviéticos. Hoje, sem recurso à sétima arte, estão aí os chineses. Julgo não haver lugar a qualquer preocupação quanto à origem do capital que adquiriu os cerca de 21% do capital da EDP. O que é importante é sabermos que vendendo todas as empresas que tem sob a sua alçada, de futuro, o Estado jamais poderá definir uma estratégia de energia, de telecomunicações, de transportes, de defesa e armamento, ou outras. E o dia chegará em que uma qualquer troika determine, e um qualquer governo aceda, que as escolas e hospitais públicos devem ser privatizados. Passaremos a aprender mandarim e ter tratamentos de acunpunctura.
Aumento de preços - Com o novo ano os preços aumentaram onde dói mais: saúde e alimentação. Os economistas têm tentado determinar matematicamente qual o nível de austeridade e de sacrifícios a partir do qual uma comunidade entra em ruptura e envereda por conflitos sociais. Não têm conseguido. As sociedades são diferentes, pelo que o clique que despoleta o recurso à violência pode surgir de qualquer lado e pelo motivo que menos se espera. Talvez assim se compreendam os constantes apelos e incentivos à emigração.
O Governo tem uma bomba-relógio entre mãos e está a jogá-la ao ar como se de um berlinde se tratasse, acantonado na inevitabilidade das medidas de austeridade e na índole pacífica dos portugueses.
Mensagem de Ano Novo do Presidente da República - O Presidente está abatido, como todos nós (talvez se exceptue quem ainda tem motivos para deslocalizar sedes de empresas para a Holanda). O discurso foi morno, quase frio, há que poupar na conta da energia. Por este andar, o Prof. Cavaco Silva arrastar-se-á até ao fim do mandato para posteriormente escrever num jornal que tinha avisado e que tinha razão. É pouco.
A frase da semana: O Sporting ainda é uma equipa Cérélac, pela ternura que Domingos Paciência devota à sua equipa.
O livro da semana: Meridiano de Sangue, Cormack McCarthy, recomendado ao Ministro Vitor Gaspar. A violência da austeridade, perdão da expansão americana, através da personagem do juíz Holden, que nunca dorme...e afirma que não há-de morrer.
Aumento de preços - Com o novo ano os preços aumentaram onde dói mais: saúde e alimentação. Os economistas têm tentado determinar matematicamente qual o nível de austeridade e de sacrifícios a partir do qual uma comunidade entra em ruptura e envereda por conflitos sociais. Não têm conseguido. As sociedades são diferentes, pelo que o clique que despoleta o recurso à violência pode surgir de qualquer lado e pelo motivo que menos se espera. Talvez assim se compreendam os constantes apelos e incentivos à emigração.
O Governo tem uma bomba-relógio entre mãos e está a jogá-la ao ar como se de um berlinde se tratasse, acantonado na inevitabilidade das medidas de austeridade e na índole pacífica dos portugueses.
Mensagem de Ano Novo do Presidente da República - O Presidente está abatido, como todos nós (talvez se exceptue quem ainda tem motivos para deslocalizar sedes de empresas para a Holanda). O discurso foi morno, quase frio, há que poupar na conta da energia. Por este andar, o Prof. Cavaco Silva arrastar-se-á até ao fim do mandato para posteriormente escrever num jornal que tinha avisado e que tinha razão. É pouco.
A frase da semana: O Sporting ainda é uma equipa Cérélac, pela ternura que Domingos Paciência devota à sua equipa.
O livro da semana: Meridiano de Sangue, Cormack McCarthy, recomendado ao Ministro Vitor Gaspar. A violência da austeridade, perdão da expansão americana, através da personagem do juíz Holden, que nunca dorme...e afirma que não há-de morrer.
29 dezembro 2011
LIVRARIA FERIN
Hoje estava Sol, ao meio-dia a temperatura era amena, o rosto dos transeuntes na Rua Nova do Almada não era totalmente fechado, e eu entrei na Livraria Ferin. Foi um bocadinho da manhã que me encheu o dia.
Entrar na Ferin, é entrar numa livraria a sério. Sobretudo por que não se tropeça no best-seller com lugar no podium forjado, não se esbarra a cada canto e esquina com a auto-ajuda e, embora a casa remonte a 1840, tanto quanto se sabe não há perigo de aparição de qualquer vampiro.
Ser a Livraria Ferin uma livraria a sério, dever-se-á muito ao facto de ser pertença e ser gerida pela mesma família à seis gerações. Daí o gosto pelos livros, em geral, e em particular pelos de origem francesa muitos dos quais não terão tradução em português porque dificilmente não têm mercado. Mas, encontram-se também autores portugueses de séculos passados difíceis de vislumbrar noutros sítios e edições "especializadas" de religião, de filosofia e de viagens e de história.
Nos cerca de quarenta e cinco minutos que lá estive, estive quase todo o tempo sozinho, entrou um cliente à procura de um livro muito particular.
Um país, em que a Cultura é uma filha bastarda de um deus menor, tem na zona do Chiado a mais antiga livraria do Mundo, a Bertrand, e porventura uma das mais antigas da Europa, a Ferin. Visitem e encham a Ferin.
Entrar na Ferin, é entrar numa livraria a sério. Sobretudo por que não se tropeça no best-seller com lugar no podium forjado, não se esbarra a cada canto e esquina com a auto-ajuda e, embora a casa remonte a 1840, tanto quanto se sabe não há perigo de aparição de qualquer vampiro.
Ser a Livraria Ferin uma livraria a sério, dever-se-á muito ao facto de ser pertença e ser gerida pela mesma família à seis gerações. Daí o gosto pelos livros, em geral, e em particular pelos de origem francesa muitos dos quais não terão tradução em português porque dificilmente não têm mercado. Mas, encontram-se também autores portugueses de séculos passados difíceis de vislumbrar noutros sítios e edições "especializadas" de religião, de filosofia e de viagens e de história.
Nos cerca de quarenta e cinco minutos que lá estive, estive quase todo o tempo sozinho, entrou um cliente à procura de um livro muito particular.
Um país, em que a Cultura é uma filha bastarda de um deus menor, tem na zona do Chiado a mais antiga livraria do Mundo, a Bertrand, e porventura uma das mais antigas da Europa, a Ferin. Visitem e encham a Ferin.
23 dezembro 2011
HISTÓRIA DE NATAL
Eu queria escrever uma História de Natal como eram todas as histórias de Natal da minha infância. Daquelas que acabam com os ebenezers scrooges desta vida atarantados, cheios de medo e convertidos à solidariedade humana.
É preciso dizer que a minha infância durou até tarde, até pr' aí aos cinquenta anos. E só então me dei conta que a parte fantasiosa do Conto de Natal de Dickens, não eram as aparições dos Natais Passado, Presente e Futuro, era mesmo a conversão do Scrooge em ser humano de bons sentimentos e bom coração. Já não se fazem scrooges como o da história. Os scrooges de hoje entram-nos casa dentro com ar compungido dizendo que o Natal tem de ser duro porque andámos a celebrar natais à grande; os scrooges actuais não aumentam o ordenado como no conto,dizem antes que os portugueses têm de trabalhar mais horas e retiram-lhe parte do salário.
Neste Natal multiplicar-se-ão os Bob Cratchit (o rapaz da história de Dickens), só que em negativo: em vez de terem um Natal melhorado, tê-lo-ão abaixo das suas expectativas. Os pais vão avisando, Este ano é só um brinquedo pequenino, mas invariavelmente a esperança de ver o presente almejado só morrerá à meia-noite de 24 de Dezembro, ou no dia 25 de manhã. Enquanto a desolação se dever à diminuta dimensão do brinquedo, não será assim tão mau. O pior será o comer da ceia de Natal, condimentado com as lágrimas dos pais, porque no resto do ano, a labuta para pôr o pão na mesa afigura-se inglória.
A minha História de Natal preferida não é a de Dickens, é a de um Menino que nasceu sem nada, se fez à vida e se fez Homem, e que bem ou mal se tornou símbolo de uma grande parte da humanidade. Não consta que, nos seus 33 anos de vida, alguma vez tenha celebrado o Natal, mas compartiu o pão e o vinho, multiplicou os peixes e tornou-os alimento do espírito; não há mesmo relatos de que tenha celebrado o dia de anos, mas histórias existem de que protegeu os fracos e indefesos e acusou os poderosos.
Esta é a História que me dá ânimo, dizendo-me que se procedermos como o Menino, os natais futuros serão bem melhores sem ser necessária a caridade dos ebenezers scrooges.
Eu queria contar uma História de Natal, mas a original é a melhor de todas. Tudo isto é inventado, e do domínio da crença. Pode ser, mas terminada a minha ingenuidade da infância, deixem-me prolongar a da adolescência.
É preciso dizer que a minha infância durou até tarde, até pr' aí aos cinquenta anos. E só então me dei conta que a parte fantasiosa do Conto de Natal de Dickens, não eram as aparições dos Natais Passado, Presente e Futuro, era mesmo a conversão do Scrooge em ser humano de bons sentimentos e bom coração. Já não se fazem scrooges como o da história. Os scrooges de hoje entram-nos casa dentro com ar compungido dizendo que o Natal tem de ser duro porque andámos a celebrar natais à grande; os scrooges actuais não aumentam o ordenado como no conto,dizem antes que os portugueses têm de trabalhar mais horas e retiram-lhe parte do salário.
Neste Natal multiplicar-se-ão os Bob Cratchit (o rapaz da história de Dickens), só que em negativo: em vez de terem um Natal melhorado, tê-lo-ão abaixo das suas expectativas. Os pais vão avisando, Este ano é só um brinquedo pequenino, mas invariavelmente a esperança de ver o presente almejado só morrerá à meia-noite de 24 de Dezembro, ou no dia 25 de manhã. Enquanto a desolação se dever à diminuta dimensão do brinquedo, não será assim tão mau. O pior será o comer da ceia de Natal, condimentado com as lágrimas dos pais, porque no resto do ano, a labuta para pôr o pão na mesa afigura-se inglória.
A minha História de Natal preferida não é a de Dickens, é a de um Menino que nasceu sem nada, se fez à vida e se fez Homem, e que bem ou mal se tornou símbolo de uma grande parte da humanidade. Não consta que, nos seus 33 anos de vida, alguma vez tenha celebrado o Natal, mas compartiu o pão e o vinho, multiplicou os peixes e tornou-os alimento do espírito; não há mesmo relatos de que tenha celebrado o dia de anos, mas histórias existem de que protegeu os fracos e indefesos e acusou os poderosos.
Esta é a História que me dá ânimo, dizendo-me que se procedermos como o Menino, os natais futuros serão bem melhores sem ser necessária a caridade dos ebenezers scrooges.
Eu queria contar uma História de Natal, mas a original é a melhor de todas. Tudo isto é inventado, e do domínio da crença. Pode ser, mas terminada a minha ingenuidade da infância, deixem-me prolongar a da adolescência.
20 dezembro 2011
VISÃO DA ACTUALIDADE DA SEMANA
- Desvio colossal: O senhor Primeiro-Ministro anunciou, ao Correio da Manhã em primeira mão, que o déficite de 2011 se situaria nos 4,5%, em vez dos "contratados" 5,9%. Sabe-se que foi à custa do Fundo de Pensões da Banca, que é uma receita pontual, que não volta a repetir-se, aliás só aporta futuros encargos para o Estado. Mas, percebe-se muito mal, porque mal explicada, a necessidade urgente de medidas de austeridade sobre medidas de austeridade, quando se sabia que existia esta "almofada". O Fundo de Pensões não apareceu por obra e graça do Espírito Santo depois de aprovado o Orçamento para 2012.
- Sustentabilidade do Estado Social: esta semana, até um conhecido humorista, na sua crónica semanal veio contar uma anedota para explicar a falência do Estado Social e de que somos todos uns ingénuos se continuamos a acreditar nele. É preciso dizer que o Estado Social não é um negócio, é uma opção ideológica com uma consequente opção de despesa pública e que o Estado Social não é AUTO-sustentável, mas pode ser sustentável. Subsídio à EDP para energias renováveis, grandes empresas portuguesas com sede na Holanda para "eficiência" fiscal, parcerias público-privadas com contratos leoninos favoráveis aos privados, etc,etc. Já viram que possivelmente há dinheiro para sustentar o Estado Social?
- Os países viciados na dívida são como as pessoas viciadas em álcool: declarou o Presidente do Banco Central Alemão. Julgo que, pelo menos, se estaria a referir à dívida que a Alemanha tem para com a Grécia e nunca mais "pára de a beber".
- Os professores devem emigrar: Opinião, sugestão, recomendação, do senhor Primeiro-Ministro, posteriormente sublimada pelo senhor Ministro Miguel Relvas. Tal e qual como numa empresa o que causa grandes problemas são os clientes, num país o que atrapalha é o povo.
- O Livro da Semana - Os Maias, Eça de Queirós, um dos 100 melhores romances de sempre. Seria interessante que se produzisse hoje um romance que retratasse a sociedade portuguesa, no nosso tempo, como Eça fez com a sua época.
- Sustentabilidade do Estado Social: esta semana, até um conhecido humorista, na sua crónica semanal veio contar uma anedota para explicar a falência do Estado Social e de que somos todos uns ingénuos se continuamos a acreditar nele. É preciso dizer que o Estado Social não é um negócio, é uma opção ideológica com uma consequente opção de despesa pública e que o Estado Social não é AUTO-sustentável, mas pode ser sustentável. Subsídio à EDP para energias renováveis, grandes empresas portuguesas com sede na Holanda para "eficiência" fiscal, parcerias público-privadas com contratos leoninos favoráveis aos privados, etc,etc. Já viram que possivelmente há dinheiro para sustentar o Estado Social?
- Os países viciados na dívida são como as pessoas viciadas em álcool: declarou o Presidente do Banco Central Alemão. Julgo que, pelo menos, se estaria a referir à dívida que a Alemanha tem para com a Grécia e nunca mais "pára de a beber".
- Os professores devem emigrar: Opinião, sugestão, recomendação, do senhor Primeiro-Ministro, posteriormente sublimada pelo senhor Ministro Miguel Relvas. Tal e qual como numa empresa o que causa grandes problemas são os clientes, num país o que atrapalha é o povo.
- O Livro da Semana - Os Maias, Eça de Queirós, um dos 100 melhores romances de sempre. Seria interessante que se produzisse hoje um romance que retratasse a sociedade portuguesa, no nosso tempo, como Eça fez com a sua época.
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