03 janeiro 2012

VISÃO DA ACTUALIDADE DA SEMANA

Privatização da EDP - Há um filme com o título Vêm aí os Russos, quando na Guerra Fria se temia a invasão do "Ocidente" pelos soviéticos. Hoje, sem recurso à sétima arte, estão aí os chineses. Julgo não haver lugar a qualquer preocupação quanto à origem do capital que adquiriu os cerca de 21% do capital da EDP. O que é importante é sabermos que vendendo todas as empresas que tem sob a sua alçada, de futuro, o Estado jamais poderá definir uma estratégia de energia, de telecomunicações, de transportes, de defesa e armamento, ou outras. E o dia chegará em que uma qualquer troika determine, e um qualquer governo aceda, que as escolas e hospitais públicos devem ser privatizados. Passaremos a aprender mandarim e ter tratamentos de acunpunctura.

Aumento de preços - Com o novo ano os preços aumentaram onde dói mais: saúde e alimentação. Os economistas têm tentado determinar matematicamente qual o nível de austeridade e de sacrifícios a partir do qual uma comunidade entra em ruptura e envereda por conflitos sociais. Não têm conseguido. As sociedades são diferentes, pelo que o clique que despoleta o recurso à violência pode surgir de qualquer lado e pelo motivo que menos se espera. Talvez assim se compreendam os constantes apelos e incentivos à emigração.
O Governo tem uma bomba-relógio entre mãos e está a jogá-la ao ar como se de um berlinde se tratasse, acantonado na inevitabilidade das medidas de austeridade e na índole pacífica dos portugueses.

Mensagem de Ano Novo do Presidente da República - O Presidente está abatido, como todos nós (talvez se exceptue quem ainda tem motivos para deslocalizar sedes de empresas para a Holanda). O discurso foi morno, quase frio, há que poupar na conta da energia. Por este andar, o Prof. Cavaco Silva arrastar-se-á até ao fim do mandato para posteriormente escrever num jornal que tinha avisado e que tinha razão. É pouco.

A frase da semana: O Sporting ainda é uma equipa Cérélac, pela ternura que Domingos Paciência devota à sua equipa.

O livro da semana: Meridiano de Sangue, Cormack McCarthy, recomendado ao Ministro Vitor Gaspar. A violência da austeridade, perdão da expansão americana, através da personagem do juíz Holden, que nunca dorme...e afirma que não há-de morrer.

29 dezembro 2011

LIVRARIA FERIN

Hoje estava Sol, ao meio-dia a temperatura era amena, o rosto dos transeuntes na Rua Nova do Almada não era totalmente fechado, e eu entrei na Livraria Ferin. Foi um bocadinho da manhã que me encheu o dia.

Entrar na Ferin, é entrar numa livraria a sério. Sobretudo por que não se tropeça no best-seller com lugar no podium forjado, não se esbarra a cada canto e esquina com a auto-ajuda e, embora a casa remonte a 1840, tanto quanto se sabe não há perigo de aparição de qualquer vampiro.

Ser a Livraria Ferin uma livraria a sério, dever-se-á muito ao facto de ser pertença e ser gerida pela mesma família à seis gerações. Daí o gosto pelos livros, em geral, e em particular pelos de origem francesa muitos dos quais não terão tradução em português porque dificilmente não têm mercado. Mas, encontram-se também autores portugueses de séculos passados difíceis de vislumbrar noutros sítios e edições "especializadas" de religião, de filosofia e de viagens e de história.

Nos cerca de quarenta e cinco minutos que lá estive, estive quase todo o tempo sozinho, entrou um cliente à procura de um livro muito particular.

Um país, em que a Cultura é uma filha bastarda de um deus menor, tem na zona do Chiado a mais antiga livraria do Mundo, a Bertrand, e porventura uma das mais antigas da Europa, a Ferin. Visitem e encham a Ferin.

23 dezembro 2011

HISTÓRIA DE NATAL

Eu queria escrever uma História de Natal como eram todas as histórias de Natal da minha infância. Daquelas que acabam com os ebenezers scrooges desta vida atarantados, cheios de medo e convertidos à solidariedade humana.
É preciso dizer que a minha infância durou até tarde, até pr' aí aos cinquenta anos. E só então me dei conta que a parte fantasiosa do Conto de Natal de Dickens, não eram as aparições dos Natais Passado, Presente e Futuro, era mesmo a conversão do Scrooge em ser humano de bons sentimentos e bom coração. Já não se fazem scrooges como o da história. Os scrooges de hoje entram-nos casa dentro com ar compungido dizendo que o Natal tem de ser duro porque andámos a celebrar natais à grande; os scrooges actuais não aumentam o ordenado como no conto,dizem antes que os portugueses têm de trabalhar mais horas e retiram-lhe parte do salário.
Neste Natal multiplicar-se-ão os Bob Cratchit (o rapaz da história de Dickens), só que em negativo: em vez de terem um Natal melhorado, tê-lo-ão abaixo das suas expectativas. Os pais vão avisando, Este ano é só um brinquedo pequenino, mas invariavelmente a esperança de ver o presente almejado só morrerá à meia-noite de 24 de Dezembro, ou no dia 25 de manhã. Enquanto a desolação se dever à diminuta dimensão do brinquedo, não será assim tão mau. O pior será o comer da ceia de Natal, condimentado com as lágrimas dos pais, porque no resto do ano, a labuta para pôr o pão na mesa afigura-se inglória.

A minha História de Natal preferida não é a de Dickens, é a de um Menino que nasceu sem nada, se fez à vida e se fez Homem, e que bem ou mal se tornou símbolo de uma grande parte da humanidade. Não consta que, nos seus 33 anos de vida, alguma vez tenha celebrado o Natal, mas compartiu o pão e o vinho, multiplicou os peixes e tornou-os alimento do espírito; não há mesmo relatos de que tenha celebrado o dia de anos, mas histórias existem de que protegeu os fracos e indefesos e acusou os poderosos.
Esta é a História que me dá ânimo, dizendo-me que se procedermos como o Menino, os natais futuros serão bem melhores sem ser necessária a caridade dos ebenezers scrooges.

Eu queria contar uma História de Natal, mas a original é a melhor de todas. Tudo isto é inventado, e do domínio da crença. Pode ser, mas terminada a minha ingenuidade da infância, deixem-me prolongar a da adolescência.

20 dezembro 2011

VISÃO DA ACTUALIDADE DA SEMANA

- Desvio colossal: O senhor Primeiro-Ministro anunciou, ao Correio da Manhã em primeira mão, que o déficite de 2011 se situaria nos 4,5%, em vez dos "contratados" 5,9%. Sabe-se que foi à custa do Fundo de Pensões da Banca, que é uma receita pontual, que não volta a repetir-se, aliás só aporta futuros encargos para o Estado. Mas, percebe-se muito mal, porque mal explicada, a necessidade urgente de medidas de austeridade sobre medidas de austeridade, quando se sabia que existia esta "almofada". O Fundo de Pensões não apareceu por obra e graça do Espírito Santo depois de aprovado o Orçamento para 2012.

- Sustentabilidade do Estado Social: esta semana, até um conhecido humorista, na sua crónica semanal veio contar uma anedota para explicar a falência do Estado Social e de que somos todos uns ingénuos se continuamos a acreditar nele. É preciso dizer que o Estado Social não é um negócio, é uma opção ideológica com uma consequente opção de despesa pública e que o Estado Social não é AUTO-sustentável, mas pode ser sustentável. Subsídio à EDP para energias renováveis, grandes empresas portuguesas com sede na Holanda para "eficiência" fiscal, parcerias público-privadas com contratos leoninos favoráveis aos privados, etc,etc. Já viram que possivelmente há dinheiro para sustentar o Estado Social?

- Os países viciados na dívida são como as pessoas viciadas em álcool: declarou o Presidente do Banco Central Alemão. Julgo que, pelo menos, se estaria a referir à dívida que a Alemanha tem para com a Grécia e nunca mais "pára de a beber".

- Os professores devem emigrar: Opinião, sugestão, recomendação, do senhor Primeiro-Ministro, posteriormente sublimada pelo senhor Ministro Miguel Relvas. Tal e qual como numa empresa o que causa grandes problemas são os clientes, num país o que atrapalha é o povo.

- O Livro da Semana - Os Maias, Eça de Queirós, um dos 100 melhores romances de sempre. Seria interessante que se produzisse hoje um romance que retratasse a sociedade portuguesa, no nosso tempo, como Eça fez com a sua época.

15 dezembro 2011

O MEU BAIRRO

A minha amiga Filomena Alves lançou um desafio para que seus amigos escrevessem sobre os respectivos bairros, de habitação pressupõe-se. (Um parênteses, a Filomena é uma das executoras/editoras/mentalizadoras/etc/etc/etc. da revista luso-castelhana-marroquina (árabe) "Manga Ancha" de elevada qualidade literária e gráfica). Dizia eu, que "o meu bairro" bairro se pressupõe ser aquele onde se habita. Porque "o meu bairro" pode ser onde se trabalha, onde se encontra a pessoa amada, onde se foi, se é feliz, ou..., aquele onde nunca se esteve.
Eu não tenho bairro. Ou antes, tenho, mas nunca lá estive. Pertenço à categoria dos eternos insatisfeitos, e ao mesmo tempo crentes, de que existe um bairro, um bairro especial que tem, assim a modos que, o melhor dos mundos de todos os bairros por onde passei.
E, se para satisfazer, com todo o gosto, o pedido da Filomena, eu descrevesse esses bairros, um deles, por ando e andei,estaria a falsear o desiderato inicial, porque por definição (minha)se lá estive, esses não são, nunca foram os meus bairros. "O meu bairro" está sempre lá mais à frente, e amanhã, todos os amanhãs, tentarei lá chegar. Se um dia lá estiver, depois conto.

E quando vejo imagens tiradas do espaço sideral de uma esfera, achatada nos pólos, azul, manchada de brancos, penso: definitivamente, este é o meu bairro, e não mais do que isto.

13 dezembro 2011

VISÃO DA ACTUALIDADE DA SEMANA

- Cimeira Europeia - A Cimeira serviu para mostrar o poderio da Alemanha sobre a soberania dos Estados membros do Euro, cujos (fracos) líderes políticos se prontificaram a dizer ámen às propostas/imposições germânicas. Ao fim da tarde de sexta-feira, as Bolsas encerraram em alta, proclamando os doutos analistas que se devia ao sucesso da Cimeira. Durante o fim-de-semana as agências de rating disseram cobras e lagartos sobre a Cimeira, do Reino Unido e dos Estados-Unidos vieram as mais severas críticas à inoperância da Europa e, na segunda-feira, os juros para Portugal, Espanha e Itália subiram e as Bolsas fecharam em forte queda.
Os governantes, em geral, da Europa e os nossos, em particular, estarão de tal modo cegos que não conseguem ver que o que estão a fazer não serve para nada?

- Valor anual do déficite na Constituição - A prova de que não é aos países de Sul da Europa que falta cultura democrática. Se lhes falta, é por não perceberem o verdadeiro alcance anti-democrático se permitirem albergar tal aberração na sua lei fundamental.

- Aumento das taxas moderadoras na saúde - Não há razão para que o Serviço Nacional de Saúde e a Educação não sejam tendencialmente gratuitas (para outra ocasião o que se deve pagar nestas duas áreas).
A Saúde poderá até ser gratuita se os dinheiros públicos forem eficazmente aplicados e se a gestão das unidades de saúde for eficiente. O aumento das taxas moderadoras, das consultas e dos cuidados de saúde não resolve nenhuma das questões atrás colocadas. O aumento torna mais racional a procura mas mantém os desperdícios e ineficiências da gestão.
O acesso aos cuidados de saúde e à educação não é um problema económico, é um problema político e ideológico.

- Livro da semana - Mau Tempo No Canal, de Vitorino Nemésio, recomendado apenas porque é um excelente livro e que me veio à ideia, embora ao Canal seja outro, devido à continuada separação entre o Reino Unido e a Europa (desta vez sem culpa para os britânicos).

10 dezembro 2011

O Eng. José Sócrates deu um tiro no pé.

O Eng Jose Sócrates escorregou, a arma disparou-se e deu um tiro no pé. Não se conteve e encurtou o período de nojo de afastamento da política interna do país, que se desejava, para bem do próprio, mais prolongado. Deu o dito tiro numa sessão com alunos de uma faculdade ao pronunciar-se sobre dívidas e déficites (não são a mesma coisa), de como se pagam e não se paga, de infantilidades e de como teria estudado todas estas matérias. E atingiu o seu pé e atingiu-nos a todos porque os defensores da política Dr. Passos Coelho/Dr. Miguel Relvas/Eng. Ângelo Correia, assim como muitos comentadores que tinham metido a viola no saco, receberam um balão de oxigénio.

Propositadamente deixei acalmar a sanha anti-socrática e a reacção defensiva para explanar a minha leitura das declarações da "desgraça". Inclusivamente o Eng. José Sócrates já veio aclarar que nunca pretendeu dizer que Portugal não devia pagar a dívida. E se teve que voltar à liça para esclarecimentos é por que o que foi dito, por si só, não tornava evidente o pensamento do Eng. José Sócrates e muito menos vai a tempo de emendar a mão porque o vídeo pulula nas redes sociais e sem trazer anexado o posterior esclarecimento.

O que uma noite bem dormida sobre as resoluções de uma Cimeira Europeia, comandado a toque de caixa pela Alemanha (já nem digo Sr.ª Merkel), mostra à saciedade a causa das coisas e que o pecado do Eng.José Sócrates foi ter-se deixado embalar na sua governação pela sereia da dívida virtuosa cantada pelos mercados e pelos Estados com poderosos sistemas financeiros que alimentam essas dívidas dos países com economias mais débeis. Os países, todos, não apenas os mais pequenos, foram aliciados pelos sistemas de crédito fácil e barato para gastarem em obras de regime (tecnologia importada da Alemanha, França, etc) e depois apareceram os credores a dizerem que só emprestam mais dinheiro se os juros forem temperados com cicuta. O Eng. José Sócrates pode não ter estudado o que disse em Universidades de renome, mas que o "endivida-te, e viverás melhor" era apregoado em fóruns internacionais pelos mais acérrimos defensores do liberalismo, era.

A quem interessa que pessoas, famílias, empresas e Estados se endividem? A resposta é ao sistema que é apologista do maior número possível de transacções num mercado gerido pela lei da oferta e da procura. E como se consegue que todos tenham sempre dinheiro disponível para aumentarem consecutiva e exponencialmente o número de transacções? os Estados, como as pessoas, só podem oferecer se tiverem dinheiro. Se não têm dinheiro próprio, empresta-se.
O que é que se faz a um jogador de póquer que está a perder tudo? Expulsa-se da mesa? Não, emprestasse-lhe mais dinheiro - aprende-se na "universidade" dos filmes americanos. Depois, em casos extremos, cobra-se coercivamente.

O Eng. José Sócrates, nas declarações proferidas, freudianamente, confessou o seu pecado: pensou que poderia ser comandado pela política e economia neoliberais enquanto precisava, depois cortava as amarras.
O Eng. José Sócrates foi, na ocasião o instrumento, mas os verdadeiros culpados da situação de Portugal estão a montante.

O erro do Dr. Passos Coelho é que pensa que por dizer "eu sou dos vossos" tem uma maior complacência por parte do sistema neoliberal. Aliás é bem notório como a Chanceler Merkel e o Presidente Sarkozy têm um pensamento alinhado com Massamá e estranha-se que não existam task-forces, reuniões, delegações, o que quer que seja, de Portugal, Grécia, Irlanda, Itália (e outros países se juntarão)para ter posições concertadas no seio da União Europeia e nos mercados internacionais.